Quando se fala em história do Centro-Oeste, Brasília costuma ocupar o centro das atenções.
A capital federal é, sem dúvida, um dos capítulos mais importantes da história recente da região. Sua construção modificou a ocupação territorial, acelerou fluxos migratórios e transformou definitivamente o papel do Planalto Central no país.
Mas Brasília é apenas uma parte dessa história.
Muito antes de os primeiros prédios da nova capital começarem a surgir, cidades como Goiás, Pirenópolis e Corumbá de Goiás já tinham atravessado séculos de transformações. Seus casarões, igrejas, ruas e festas tradicionais preservam memórias de diferentes períodos da formação do Brasil Central.
Em Goiás, o Iphan reconhece cinco cidades históricas como conjuntos urbanos tombados: Corumbá de Goiás, Goiânia, Goiás, Pilar de Goiás e Pirenópolis. Com exceção de Goiânia, que foi uma cidade planejada, as demais tiveram origem ligada à exploração de ouro no século XVIII.
A corrida pelo ouro mudou o interior do país
A ocupação colonial de Goiás esteve fortemente relacionada à busca por riquezas minerais.
Segundo o Governo de Goiás, a chegada dos bandeirantes vindos de São Paulo, entre o final do século XVII e o início do XVIII, está entre os acontecimentos que marcaram o início da formação histórica do território goiano. A presença de populações indígenas e africanas também foi fundamental para a formação social e cultural que se desenvolveu posteriormente.
A mineração provocou o surgimento de arraiais próximos aos locais de exploração.
O ouro encontrado às margens dos rios contribuiu para a criação de núcleos urbanos que, em alguns casos, sobreviveram ao declínio da atividade mineradora.
É justamente por isso que algumas das cidades históricas do Centro-Oeste possuem uma característica curiosa: sua permanência está relacionada, em parte, ao próprio fim do ciclo do ouro.
Com a redução da atividade econômica, determinados municípios perderam importância e ficaram relativamente afastados das grandes transformações urbanas que atingiram outras regiões.
O resultado foi a preservação de conjuntos arquitetônicos que hoje permitem visualizar um pouco de como era a vida no Brasil Central de séculos atrás.
Cidade de Goiás: a antiga Vila Boa
Entre os exemplos mais importantes está a atual Cidade de Goiás, antiga Vila Boa.
O município foi o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido no território goiano e chegou a ser capital do estado até a transferência para Goiânia.
Em 2001, a UNESCO reconheceu a cidade como Patrimônio Cultural Mundial. O Iphan destaca que o conjunto arquitetônico, paisagístico e urbanístico preservado está relacionado à riqueza gerada pela mineração de ouro e que grande parte da arquitetura colonial original permanece conservada.
Caminhar pelas ruas da Cidade de Goiás, portanto, é mais do que observar casas antigas.
É perceber como o traçado urbano, as igrejas, os espaços públicos e os edifícios foram organizados em outro período da história brasileira.
Entre os patrimônios preservados está o prédio do Museu das Bandeiras, construído no século XVIII e que durante muito tempo funcionou como cadeia.
A cidade também demonstra como patrimônio material e cultura viva podem caminhar juntos.
As tradições religiosas, festas, manifestações culturais e culinária continuam fazendo parte da identidade local.
Pirenópolis: patrimônio que continua vivo
Pirenópolis oferece outra experiência.
A cidade surgiu no século XVIII e se consolidou a partir da mineração. Seu centro histórico conserva casarões, igrejas e ruas que formam um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do Brasil Central.
O Iphan destaca que o município reúne um dos mais ricos acervos patrimoniais do Brasil Central e que seu conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico permanece como testemunho dos primeiros tempos da ocupação do território goiano.
Mas talvez uma das características mais interessantes de Pirenópolis seja o fato de que sua história não ficou presa aos edifícios.
A Festa do Divino Espírito Santo, com suas Cavalhadas e outras manifestações tradicionais, tornou-se uma das expressões culturais mais conhecidas do município.
Isso mostra uma diferença importante entre simplesmente preservar uma construção antiga e preservar patrimônio cultural.
Uma casa colonial pode ser restaurada. Uma tradição, porém, precisa continuar sendo praticada pelas pessoas para permanecer viva.
Corumbá de Goiás: entre mineração e caminhos comerciais
Corumbá de Goiás também nasceu em um contexto ligado à mineração.
O centro histórico surgiu em 1731 como polo de exploração mineral. Posteriormente, a cidade assumiu outra função importante: tornou-se entreposto comercial por causa de sua localização nas antigas rotas que ligavam Goiás a outras regiões.
Essa mudança ajuda a compreender um aspecto interessante da história regional.
As cidades não permanecem importantes necessariamente pelo mesmo motivo durante toda a sua existência.
Uma localidade pode nascer por causa do ouro, prosperar com o comércio e, posteriormente, encontrar novas vocações relacionadas à agricultura, ao turismo ou aos serviços.
Corumbá de Goiás é um exemplo dessa capacidade de transformação.
A história também está nas ruas
Uma das melhores maneiras de compreender uma cidade histórica é observar seus detalhes.
O tamanho das ruas, a posição das igrejas, os materiais utilizados nas construções, a presença de praças e a relação entre os edifícios revelam muito sobre os períodos em que aqueles espaços foram construídos.
O patrimônio material protegido pelo Iphan inclui justamente conjuntos urbanos, edificações, sítios arqueológicos e paisagens que possuem valor histórico e cultural.
Por isso, uma viagem a uma cidade histórica pode funcionar como uma espécie de aula ao ar livre.
Não é preciso necessariamente entrar em um museu para perceber que existe história ao redor.
Ela está na arquitetura.
A presença indígena também faz parte dessa história
Existe, porém, um cuidado importante ao contar a história da ocupação do Centro-Oeste.
Durante muito tempo, os relatos tradicionais deram enorme destaque aos bandeirantes e às expedições de exploração, deixando em segundo plano as populações que já habitavam esses territórios.
A formação histórica regional não pode ser compreendida apenas a partir da chegada dos colonizadores.
Povos indígenas já ocupavam o território, possuíam suas próprias culturas, conhecimentos sobre a natureza e formas de organização social. A presença africana também foi decisiva, inclusive através da população escravizada que participou da economia da mineração e de outras atividades.
A própria documentação histórica sobre Goiás reconhece que o contato entre indígenas, negros e bandeirantes foi decisivo para a formação cultural do estado.
Uma visão mais completa da história precisa, portanto, considerar essas diferentes perspectivas.
O passado não ficou parado
É tentador imaginar cidades históricas como lugares congelados no tempo.
Mas não é isso que acontece.
As cidades continuam sendo habitadas, recebem novos moradores, desenvolvem atividades econômicas e adaptam suas tradições.
O desafio está justamente em conciliar essas transformações com a preservação do patrimônio.
No caso de Goiás, o Iphan mantém cinco conjuntos urbanos tombados e diversos bens individuais protegidos.
Isso significa que preservar não é impedir a cidade de existir.
É permitir que ela continue existindo sem perder elementos que ajudam a explicar sua origem.
Uma história que chega até Brasília
A relação entre essas cidades históricas e Brasília também é interessante.
A construção da nova capital, inaugurada em 1960, não apagou a história anterior do Centro-Oeste.
Ao contrário: Brasília passou a fazer parte de uma região que já possuía caminhos, cidades e tradições.
A capital representa um período muito mais recente, marcado pelo modernismo, pela urbanização planejada e pela interiorização do poder político.
As cidades históricas representam capítulos anteriores.
Juntas, ajudam a contar uma história muito mais ampla.
Conhecer o Centro-Oeste é conhecer diferentes tempos
Talvez essa seja uma das características mais fascinantes da região.
Em poucos dias, é possível sair de Brasília, uma das maiores experiências urbanísticas do século XX, e chegar a cidades onde ruas, igrejas e casarões remetem a períodos muito anteriores.
Não existe contradição entre esses dois mundos.
Eles fazem parte da mesma região e de uma história que foi sendo construída em diferentes momentos.
Conhecer Goiás, Pirenópolis, Corumbá de Goiás e outras cidades históricas é, portanto, uma oportunidade de olhar para o Centro-Oeste para além da imagem de uma região moderna e voltada para o futuro.
Antes da capital planejada, existiam os antigos caminhos.
Antes dos grandes monumentos de Brasília, existiam igrejas e casarões.
E antes de tudo isso, existiam povos e culturas que já conheciam profundamente esse território.
É essa combinação de tempos históricos que torna o Centro-Oeste uma região tão rica para quem deseja entender o Brasil.
Alô Centro Oeste
