Frutas do Cerrado: sabores pouco conhecidos que estão conquistando espaço na gastronomia

Araticum, cagaita, mangaba, murici, mama-cadela e guapeva fazem parte de uma enorme diversidade de frutas nativas. Muitas já eram utilizadas tradicionalmente pelas populações da região e agora despertam interesse de produtores, pesquisadores e chefs.

Quando se fala em frutas do Cerrado, o pequi costuma ser o primeiro nome lembrado.

Depois dele, talvez apareça o baru.

Mas a biodiversidade alimentar do Centro-Oeste é muito maior.

O Cerrado possui dezenas de espécies nativas cujos frutos podem ser consumidos in natura ou utilizados na produção de doces, geleias, sucos, sorvetes, bebidas, farinhas e outros produtos.

Uma publicação da Embrapa dedicada ao aproveitamento alimentar do Cerrado reúne espécies como araticum, baru, buriti, cagaita, gabiroba, guapeva, jatobá, mama-cadela, mangaba, murici, pequi e várias outras.

Algumas dessas frutas continuam praticamente desconhecidas fora de suas regiões de ocorrência.

Araticum: um fruto de personalidade

O araticum é uma das frutas mais interessantes do Cerrado.

Seu fruto possui polpa aromática e sabor marcante e pode ser consumido fresco ou utilizado em diferentes preparações.

Também é conhecido por outros nomes regionais, e seu aproveitamento tradicional inclui doces e bebidas.

A importância do araticum não está apenas na alimentação.

A espécie faz parte da vegetação nativa e representa uma oportunidade de valorização econômica da biodiversidade quando seu uso ocorre de maneira responsável.

Cagaita: delicada e regional

A cagaita é outra fruta bastante característica.

O fruto apresenta polpa suculenta e sabor ácido e pode ser utilizado na preparação de sucos, geleias, doces e outros produtos.

Seu nome popular está relacionado ao efeito que o consumo excessivo do fruto maduro pode provocar em algumas circunstâncias.

É um exemplo interessante de como o conhecimento tradicional sobre uma espécie reúne não apenas informações sobre sabor, mas também sobre formas de consumo.

A Embrapa inclui a cagaita entre as fruteiras nativas do Cerrado com potencial de aproveitamento alimentar.

Mangaba: sabor que ultrapassa o Cerrado

A mangaba possui uma distribuição que não se limita ao Centro-Oeste.

Ela também ocorre em outros ambientes brasileiros, mas está entre as espécies nativas que fazem parte do repertório alimentar associado ao Cerrado.

Pode ser consumida fresca e também transformada em sucos, sorvetes, doces e geleias.

O interessante é observar como uma mesma espécie pode assumir diferentes significados culturais conforme a região.

No Cerrado, seu aproveitamento se conecta ao conhecimento sobre plantas nativas e à gastronomia regional.

Murici: pequeno no tamanho, grande no sabor

O murici é outra fruta que merece mais atenção.

Pequeno e de sabor intenso, pode ser utilizado em bebidas, doces e preparações culinárias.

Seu aroma característico faz com que seja facilmente reconhecido por quem cresceu consumindo a fruta.

Para quem ainda não conhece, pode ser uma surpresa perceber a quantidade de sabores existentes em espécies que crescem naturalmente no Centro-Oeste.

Mama-cadela: uma fruta que chama atenção pelo nome

O nome já desperta curiosidade.

A mama-cadela é uma espécie nativa que produz frutos com polpa de coloração alaranjada quando maduros.

Tradicionalmente, o fruto pode ser consumido fresco e utilizado em preparações.

A espécie também é conhecida por diferentes nomes populares, algo bastante comum entre plantas nativas brasileiras.

Essa variedade de nomes revela outra característica importante do conhecimento sobre a flora: comunidades diferentes podem estabelecer relações distintas com a mesma espécie.

Guapeva: uma espécie pouco conhecida fora da região

A guapeva aparece entre as fruteiras nativas estudadas pela Embrapa.

É uma espécie menos conhecida pelo público urbano de outras partes do país, mas faz parte do repertório de plantas alimentícias do Cerrado.

Seu exemplo mostra como ainda existe uma enorme quantidade de biodiversidade alimentar pouco explorada comercialmente.

Quando uma fruta nativa passa a ser utilizada em restaurantes, feiras ou produtos industrializados, ela pode deixar de ser conhecida apenas regionalmente.

Mas isso precisa acontecer com planejamento.

Jatobá: fruto, farinha e tradição

O jatobá possui uma característica particularmente interessante.

Além da polpa, seu fruto pode ser aproveitado para a produção de farinha.

O ingrediente pode ser utilizado em preparações alimentares e apresenta características nutricionais que despertam interesse da pesquisa.

O jatobá também mostra que o aproveitamento da biodiversidade não precisa necessariamente reproduzir os mesmos formatos da indústria convencional.

Uma fruta nativa pode gerar farinha, bebida, doce ou ingrediente para diferentes receitas.

O conhecimento tradicional é parte dessa riqueza

Antes de chegar aos laboratórios ou aos restaurantes, muitas dessas frutas já eram conhecidas pelas populações locais.

O conhecimento sobre quando colher, como preparar, como conservar e como consumir os frutos foi sendo transmitido entre gerações.

A própria publicação da Embrapa sobre aproveitamento alimentar do Cerrado registra que as técnicas reunidas foram construídas a partir de receitas e conhecimentos provenientes de livros de culinária, moradores das áreas urbana e rural e funcionários da instituição.

Isso é importante porque mostra que ciência e conhecimento tradicional não precisam ser tratados como mundos separados.

A pesquisa pode ajudar a compreender melhor uma espécie, desenvolver técnicas de processamento e ampliar suas possibilidades comerciais.

Mas existe um conhecimento anterior, construído por pessoas que convivem com essas plantas há muito tempo.

Da fruta ao produto

A valorização das frutas nativas pode gerar uma cadeia econômica interessante.

Uma pequena propriedade rural pode produzir polpas. Uma cooperativa pode trabalhar com geleias. Um empreendimento pode desenvolver sorvetes. Um restaurante pode incorporar determinado fruto ao cardápio.

A mesma espécie pode gerar diferentes produtos.

A Embrapa registra justamente essa variedade de possibilidades: doces, geleias, mingaus, pães, bolos, sorvetes, bebidas, pratos salgados e licores estão entre os usos tradicionalmente documentados para espécies do Cerrado.

Isso amplia o potencial econômico dos frutos sem depender necessariamente de grandes monoculturas.

Biodiversidade também pode gerar renda

Existe uma discussão importante por trás dessa valorização.

Durante muito tempo, a conservação ambiental foi apresentada principalmente como uma questão de proteção contra atividades econômicas.

Hoje, ganha força a ideia de que a própria biodiversidade pode gerar oportunidades econômicas quando utilizada de forma sustentável.

Uma fruta nativa que possui valor comercial pode criar incentivo para manter árvores e áreas naturais preservadas.

Mas existe uma condição fundamental: o aumento da demanda precisa ser acompanhado de manejo adequado.

Se a procura cresce mais rápido do que a capacidade de regeneração das espécies, o resultado pode ser justamente o contrário do desejado.

Valorizar não significa explorar sem limites.

O papel dos pequenos produtores

A agricultura familiar e o extrativismo podem ter papel importante nessa cadeia.

Pequenos produtores conhecem o ciclo das espécies, as épocas de produção e as características locais.

Com acesso a tecnologia, organização e mercados, podem transformar produtos que antes tinham consumo restrito em fontes adicionais de renda.

Isso também pode ajudar a aproximar o consumidor urbano da origem dos alimentos.

Ao comprar uma geleia de cagaita ou um produto feito com baru, por exemplo, o consumidor está adquirindo muito mais do que um sabor diferente.

Está consumindo uma parte da identidade do território.

Restaurantes também estão redescobrindo o Cerrado

A gastronomia contemporânea brasileira passou a prestar cada vez mais atenção aos ingredientes nativos.

Chefs utilizam frutos, sementes, folhas e outros produtos regionais para criar pratos que procuram representar os lugares onde são produzidos.

No Centro-Oeste, esse movimento tem um significado especial.

Durante muito tempo, ingredientes do Cerrado foram tratados como produtos regionais ou alimentos do cotidiano rural.

Agora, alguns deles começam a aparecer em propostas gastronômicas mais sofisticadas.

Essa mudança pode ajudar a combater a ideia de que a culinária regional é menos sofisticada.

Na realidade, ela possui uma matéria-prima extremamente rica.

O sabor também pode ajudar a conservar a natureza

Existe uma relação interessante entre gastronomia e conservação.

Quando uma espécie nativa passa a ter valor econômico e cultural, aumenta também a atenção sobre sua preservação.

Mas o caminho precisa ser feito com responsabilidade.

O objetivo não deve ser transformar todo fruto do Cerrado em produto comercial.

Algumas espécies precisam permanecer principalmente como parte dos ecossistemas naturais.

O desafio está em encontrar formas de uso que sejam compatíveis com a conservação.

Um território que ainda precisa ser descoberto

O mais surpreendente talvez seja perceber que o consumidor brasileiro conhece apenas uma pequena parte da diversidade alimentar do Cerrado.

Pequi e baru já conquistaram espaço em diferentes mercados.

Mas ao lado deles existe uma enorme lista de espécies.

Araticum, cagaita, mangaba, murici, mama-cadela, guapeva, jatobá, gabiroba, buriti e tantas outras ainda podem ganhar maior reconhecimento.

Cada uma possui sabor, história e características próprias.

Conhecer essas frutas é, portanto, uma forma diferente de conhecer o Centro-Oeste.

Porque o Cerrado não está apenas nas paisagens que vemos pela janela.

Ele também pode estar no alimento servido à mesa.

E talvez uma das maneiras mais saborosas de valorizar a biodiversidade seja justamente descobrir que aquilo que cresce naturalmente no coração do Brasil pode guardar sabores que ainda são desconhecidos para boa parte do país.


Alô Centro Oeste