Quem vive no Cerrado? 10 animais que ajudam a contar a história da biodiversidade do Centro-Oeste

Lobo-guará, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, ema, anta e onça-pintada estão entre os animais que ajudam a revelar a complexidade dos ecossistemas do Centro-Oeste. Conheça algumas das espécies e entenda por que protegê-las significa preservar muito mais do que a fauna.

É relativamente fácil reconhecer a imagem de um lobo-guará ou de uma onça-pintada.

Mais difícil é compreender o papel que cada animal desempenha dentro do ambiente em que vive.

No Cerrado, a fauna participa de uma rede complexa que envolve plantas, frutos, sementes, insetos, rios, solos e outros animais. Quando uma espécie desaparece de determinada área, as consequências podem ultrapassar a própria espécie.

O Centro-Oeste reúne ambientes capazes de abrigar uma fauna extraordinariamente diversa. O ICMBio estima aproximadamente 200 espécies de mamíferos e 800 espécies de aves no Cerrado, além de centenas de espécies de répteis, anfíbios e peixes.

Conhecer alguns desses animais é uma maneira de entender melhor a região.

1. Lobo-guará: o símbolo das áreas abertas

Com suas pernas longas e aparência inconfundível, o lobo-guará é provavelmente um dos animais mais associados ao Cerrado.

Ele ocupa ambientes de vegetação aberta e tem hábitos que permitem sua circulação por grandes áreas.

Apesar de parecer um grande predador, sua alimentação é bastante diversificada. Frutos, pequenos animais e outros recursos fazem parte de sua dieta.

O lobo-guará também aparece entre as espécies ameaçadas protegidas em unidades de conservação do Cerrado, como a Chapada dos Guimarães e a Chapada dos Veadeiros.

Sua conservação depende, entre outros fatores, da manutenção de áreas naturais conectadas.

2. Tamanduá-bandeira: especialista em formigas e cupins

O tamanduá-bandeira é outro personagem emblemático da fauna regional.

Sua alimentação é especializada em formigas e cupins, o que faz com que esteja diretamente ligado à dinâmica dos solos e dos ambientes onde esses insetos vivem.

A espécie é classificada como vulnerável e possui um programa de manejo populacional coordenado pelo ICMBio, com ações voltadas à conservação das populações.

A existência desse programa mostra que conservar a espécie exige planejamento de longo prazo.

3. Tatu-canastra: um verdadeiro engenheiro do ambiente

O tatu-canastra impressiona pelo tamanho e também pelo comportamento.

Ao escavar o solo para construir seus abrigos, o animal modifica fisicamente o ambiente. Suas tocas podem ser utilizadas por outras espécies, o que faz com que sua atividade tenha efeitos que vão além do próprio tatu.

É um exemplo clássico de como determinado animal pode funcionar como um “engenheiro do ecossistema”.

A espécie aparece entre os animais ameaçados protegidos em unidades de conservação como a Chapada dos Guimarães e a Chapada dos Veadeiros.

4. Anta: a grande dispersora de sementes

A anta é um dos maiores mamíferos terrestres encontrados no Centro-Oeste.

Por se alimentar de uma variedade de frutos e vegetais e percorrer grandes áreas, pode desempenhar importante papel na dispersão de sementes.

Isso significa que o animal ajuda indiretamente na regeneração da vegetação.

Quando uma anta se alimenta de um fruto e posteriormente elimina suas sementes em outro local, participa de um processo fundamental para a renovação das plantas.

No Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, a anta aparece entre as espécies classificadas como vulneráveis.

5. Onça-pintada: o grande predador

A onça-pintada ocupa uma posição especial nas cadeias alimentares.

Como grande predador, ela ajuda a regular populações de outras espécies e pode funcionar como indicador da qualidade ambiental de áreas naturais extensas.

Sua presença exige disponibilidade de alimento, água e áreas suficientemente preservadas para a movimentação.

Ela também aparece entre as espécies ameaçadas protegidas na Chapada dos Veadeiros e na Chapada dos Guimarães.

Quando uma paisagem perde grandes predadores, não é apenas a fauna que muda. Toda a estrutura ecológica pode sofrer alterações.

6. Ema: a grande ave dos campos

A ema é uma das aves mais características das áreas abertas do Brasil Central.

Sem capacidade de voo, utiliza as pernas fortes para correr e se deslocar por campos e cerrados.

Sua presença ajuda a lembrar que o Cerrado não é formado apenas por árvores.

Campos abertos, savanas e outras formações campestres fazem parte da diversidade de ambientes do bioma, e cada um deles possui espécies adaptadas às suas condições.

7. Seriema: uma ave que chama atenção pelo canto

A seriema também é facilmente reconhecida por seu porte e por seu comportamento.

É uma ave terrestre que pode ser observada em áreas abertas e que possui dieta variada.

Seu canto característico pode ser ouvido a longas distâncias, especialmente em ambientes onde a vegetação não é muito fechada.

Para quem observa a natureza, aprender a reconhecer sons é tão importante quanto aprender a identificar animais visualmente.

Muitas vezes, a primeira indicação de que existe fauna por perto não é uma imagem, mas um som.

8. Arara-azul: beleza que depende do ambiente

A arara-azul é um dos grandes símbolos da fauna brasileira e possui forte associação com o Pantanal.

No Mato Grosso do Sul, o Pantanal oferece ambientes importantes para observação de aves e outros animais. A Fundação de Turismo do estado destaca a riqueza da avifauna pantaneira e a possibilidade de observar espécies como araras, tuiuiús, tucanos e outras aves.

Sua conservação depende da manutenção de áreas adequadas para alimentação, reprodução e abrigo.

E esse é um ponto fundamental: proteger uma espécie não significa proteger apenas o animal.

É preciso proteger o ambiente que sustenta sua existência.

9. Veado-campeiro: especialista nas áreas abertas

O veado-campeiro está associado principalmente a ambientes abertos.

A espécie aparece entre os mamíferos de interesse para conservação no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Animais como ele ajudam a mostrar por que a conservação do Cerrado não pode se concentrar apenas em áreas de vegetação mais densa.

Campos e savanas também são ambientes ricos e possuem sua própria fauna.

10. Jaguatirica: um predador discreto

Menos famosa do que a onça-pintada, a jaguatirica é outro felino encontrado no Cerrado.

É um animal de hábitos discretos e importante predador de pequenos e médios animais.

Na Chapada dos Veadeiros, o ICMBio registra a presença da espécie e observa que as jaguatiricas ocorrem em baixas densidades na unidade.

A dificuldade de encontrar uma jaguatirica não significa que ela seja rara em todos os lugares. É preciso considerar o comportamento, o ambiente e a densidade populacional da espécie.

Uma floresta sem árvores?

Existe um erro comum quando se fala em Cerrado: imaginar que um ambiente com árvores mais espaçadas é necessariamente um ambiente pobre.

Na realidade, o bioma reúne diferentes formações vegetais, desde campos até formações florestais. O Jardim Botânico de Brasília, por exemplo, registra em sua área ambientes como mata de galeria, cerradão, vereda, cerrado sentido restrito e diferentes formações campestres.

Cada uma dessas paisagens oferece condições diferentes para a fauna.

É por isso que a diversidade de habitats é tão importante.

O problema da fragmentação

Um dos grandes desafios para a fauna é a fragmentação dos ambientes naturais.

Quando grandes áreas de vegetação são substituídas por estradas, cidades, plantações ou outras formas de ocupação, os animais podem perder áreas de alimentação, abrigo e reprodução.

Algumas espécies conseguem se adaptar melhor. Outras precisam de áreas muito maiores e de maior continuidade ambiental.

Grandes mamíferos, em particular, podem enfrentar dificuldades quando seus habitats ficam isolados.

Por isso, unidades de conservação são importantes, mas não são a única resposta. A conexão entre áreas naturais, a proteção de nascentes e matas ciliares e a manutenção de diferentes tipos de vegetação também fazem parte da conservação.

A fauna não está tão longe quanto parece

Para quem vive em Brasília ou em outras cidades do Centro-Oeste, pode parecer que esses animais pertencem a um mundo distante.

Não necessariamente.

A presença de áreas naturais próximas aos centros urbanos permite que diferentes espécies utilizem fragmentos de vegetação e corredores ecológicos.

Isso também exige responsabilidade das pessoas.

Animais silvestres não devem ser alimentados, perseguidos ou capturados. O contato aparentemente inofensivo pode prejudicar tanto o animal quanto as pessoas.

O próprio ICMBio mantém materiais de orientação para visitantes de áreas naturais, inclusive alertando para os impactos que cães e gatos domésticos podem causar sobre a fauna nativa.

Proteger uma espécie é proteger uma rede inteira

O lobo-guará, o tamanduá-bandeira, a anta, o tatu-canastra, a onça-pintada, a ema, a seriema, a arara-azul, o veado-campeiro e a jaguatirica possuem histórias e funções diferentes.

Mas existe algo que os une: nenhum deles existe isoladamente.

Cada animal depende de um conjunto de condições ambientais.

Por isso, quando uma área de Cerrado é preservada, não estamos simplesmente protegendo árvores. Estamos preservando abrigo, alimento, água, locais de reprodução e rotas de deslocamento.

A biodiversidade do Centro-Oeste é formada justamente por essa rede.

E talvez essa seja a melhor razão para olhar para a fauna regional com mais atenção: cada animal que ainda encontramos na paisagem é também um sinal de que aquele ambiente continua desempenhando suas funções naturais.


Alô Centro Oeste