Cidade de Goiás: os Quase 25 Anos de uma Vila do Ciclo do Ouro como Patrimônio da Humanidade

Em dezembro de 2026, a Cidade de Goiás completa um quarto de século como Patrimônio Mundial da UNESCO — um título concedido em dezembro de 2001 e que, na prática, apenas confirmou oficialmente o que a cidade já vinha preservando havia séculos, quase por acidente da própria história.

Tudo começou em 1727, quando um bandeirante fundou o Arraial de Sant'Anna em pleno ciclo do ouro, no interior do que viria a ser a capitania de Goiás. O povoado cresceu rápido junto com a mineração, virou Vila Boa de Goiás em 1739 e, em 1749, foi elevado à sede da capitania geral. Por mais de 200 anos — até 1937 — a cidade foi a capital do estado de Goiás, centro político e administrativo de uma das regiões mais estratégicas do Brasil colonial e imperial.

O irônico é que o declínio do ouro, que poderia ter condenado a cidade ao esquecimento, foi exatamente o que a preservou. Sem o dinamismo econômico que atraía reformas e construções novas, a antiga capital foi isolada pelo próprio esgotamento do ciclo que a fez nascer — e esse isolamento é a razão pela qual mais de 90% da arquitetura original da cidade segue de pé até hoje. Ruas de pedra, casarões brancos, igrejas coloniais e o Palácio Conde dos Arcos, erguido entre 1735 e 1759 e que hoje funciona como museu, formam um conjunto raro de autenticidade — o tipo de cenário que, em outras cidades brasileiras, foi demolido décadas atrás em nome do "progresso".

Esse valor foi reconhecido formalmente em etapas: tombamento pelo IPHAN em 1978, status de Monumento Nacional em 1981 e, por fim, a inscrição na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em dezembro de 2001, sob dois critérios oficiais — o de representar um exemplo excepcional de cidade europeia adaptada às condições climáticas, geográficas e culturais do interior da América do Sul, e o de documentar a evolução de uma estrutura urbana colonial que hoje é o último exemplar remanescente da ocupação do interior do Brasil como ela era praticada nos séculos 18 e 19.

A cidade também é território de Cora Coralina, uma das poetas mais celebradas da literatura brasileira, nascida ali em 1889 e que viveu boa parte da vida na casa à beira do Rio Vermelho — hoje transformada em museu e ponto obrigatório de visita para quem quer entender como a paisagem local moldou sua obra. E, para quem visita durante a Semana Santa, a cidade guarda uma das tradições religiosas mais impactantes do Centro-Oeste: a Procissão do Fogaréu, encenação que recria a perseguição a Jesus Cristo com figuras encapuzadas carregando tochas acesas pelas ruas escuras do centro histórico, reunindo milhares de fiéis e curiosos em uma cena que parece ter atravessado os séculos intacta — quase como um espelho da própria cidade.

Contar a história da Cidade de Goiás às vésperas de completar 25 anos de título da UNESCO é também uma chance de lembrar que preservação, muitas vezes, não é fruto de planejamento — é o que sobra quando a história segue seu curso e ninguém tem pressa (ou dinheiro) para apagar o passado.


Alô Centro Oeste