A Temporada das Onças: Por que Setembro é o Melhor Mês para Ver o Maior Felino das Américas no Pantanal

Enquanto a Chapada dos Veadeiros floresce de amarelo na seca, o Pantanal Norte vive seu próprio fenômeno sazonal — só que, em vez de flores, o protagonista é o maior predador terrestre das Américas. Entre julho e outubro, o nível dos rios pantaneiros despenca, concentrando presas e predadores nas margens dos cursos d'água que ainda mantêm água — e é exatamente essa concentração forçada que transforma a região de Porto Jofre, no fim da Rodovia Transpantaneira, no point mais concorrido do planeta para quem quer ver uma onça-pintada em estado selvagem.

O epicentro é o Parque Estadual Encontro das Águas, ponto de confluência dos rios Cuiabá, Três Irmãos e Piquiri, que abriga a maior densidade de onças-pintadas do mundo. A estimativa mais recente de 2018 aponta cerca de 1.668 onças vivendo no Pantanal como um todo — uma das concentrações mais altas do planeta para a espécie. Durante a seca, guias especializados usam barcos rápidos, as chamadas "voadeiras", para patrulhar silenciosamente as margens ao amanhecer e ao entardecer, os horários de maior atividade dos animais. Em condições ideais, a taxa de sucesso em safáris de três a quatro dias chega a cerca de 90% — um número que impressiona qualquer biólogo de campo acostumado a meses de rastreamento sem sequer avistar um rastro.

Mas a fotografia idílica esconde uma equação bem mais tensa. A onça-pintada já perdeu cerca de metade de seu território histórico na região, pressionada pela expansão da agropecuária: entre 2002 e 2015, a área de hábitat adequado no Pantanal encolheu de 8,77 para 7,02 milhões de km² — uma queda de 20% em pouco mais de uma década. Os incêndios de 2020, que ficaram entre os piores já registrados no bioma, queimaram cerca de 79% das áreas monitoradas habitadas por onças, afetando diretamente por volta de 45% da população local de felinos. Some-se a isso o conflito com produtores rurais: onças que atacam gado sofrem retaliação, e pesquisas na região identificam animais sobreviventes com ferimentos de bala anteriores — sequela de conflitos que comprometem a capacidade de caça e sobrevivência do animal. As mudanças climáticas, com secas mais intensas e cheias irregulares, completam o quadro de pressão sobre a espécie.

Do lado da conservação, a resposta tem ganhado corpo: o ICMBio lançou o Plano de Ação Nacional para Conservação de Grandes Felinos com vigência até 2030, organizações como a Panthera mantêm pesquisa e monitoramento ativos na região, e a Jaguar Corridor Initiative — um esforço de conectividade que abrange cerca de 6 milhões de km² em 14 países — busca garantir que populações isoladas de onças-pintadas continuem trocando material genético entre si, evitando o isolamento reprodutivo.

Para quem visita, a experiência costuma se estruturar a partir de pousadas como a Piuval, próxima à Transpantaneira, ou de cruzeiros fluviais que posicionam o visitante diretamente em território de caça das onças, reduzindo o tempo de deslocamento até as zonas de maior observação. É turismo de natureza no sentido mais literal — mas também, cada vez mais, uma vitrine para a urgência de proteger um bioma que segue perdendo terreno mesmo sendo, ainda, o último grande refúgio da espécie na América do Sul.


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