Sobá: o Prato Japonês que Virou a Alma Gastronômica de Campo Grande

Há pratos que chegam a uma cidade e ficam datados como "comida de fora". E há pratos que chegam, se misturam com o lugar e, décadas depois, ninguém mais consegue separar onde termina a tradição importada e onde começa a identidade local. O sobá de Campo Grande é do segundo tipo — tão entranhado na cultura da capital sul-mato-grossense que hoje é oficialmente reconhecido como Patrimônio Imaterial da cidade, tratado como símbolo gastronômico maior do que qualquer prato de origem "genuinamente" brasileira.

A história começa em 1908, com a primeira leva de imigrantes japoneses — muitos deles de Okinawa — que desembarcaram no Brasil e, com o tempo, se espalharam para o interior do país, incluindo o então Mato Grosso (a divisão que criaria Mato Grosso do Sul só viria em 1977). O sobá que eles trouxeram tinha raízes muito mais antigas do que a própria imigração: é um macarrão de origem budista, com trajetória que remonta ao século 6 na Ásia, e que se popularizou no Japão através de vendedores ambulantes — a ponto de historiadores da alimentação apontarem o sobá como uma espécie de precursor do "fast food" japonês, servido rápido e nas ruas.

Em Campo Grande, o prato passou por adaptações que hoje são inseparáveis da receita local: no lugar do trigo-sarraceno original, farinha de trigo comum; no lugar do porco, carne bovina ou frango, mais alinhados ao hábito de consumo regional. O caldo, o jeito de temperar, a forma de servir — tudo foi sendo moldado pela comunidade okinawana e por gerações de descendentes, até o sobá deixar de ser "prato de imigrante" e se tornar, simplesmente, prato de Campo Grande.

Esse processo tem endereço certo: a Feira Central, fundada em 1924 na antiga Praça do Mercado, no coração da cidade. Desde o início, a feira reuniu não só japoneses, mas também comerciantes sírio-libaneses, paraguaios, bolivianos e povos indígenas vendendo produtos agrícolas e artesanato — um caldeirão de culturas que ajuda a explicar por que Campo Grande tem uma cena gastronômica tão plural. A feira mudou de endereço várias vezes ao longo do século 20: foi para a Rua 15 de Novembro em 1955, parte dos feirantes migrou para o novo Mercado Municipal em 1958, e em 1964 houve nova realocação para a Rua José Antônio, onde funcionou por décadas nos tradicionais dias de quarta e sábado.

A grande virada aconteceu em 2004, quando a Feira Central se instalou na antiga estação ferroviária da Ferronorte — um espaço de 8.500 metros quadrados que hoje reúne cerca de 347 espaços comerciais, incluindo 199 bancas de artesanato, 120 de produtos agrícolas e 28 restaurantes, muitos deles especializados em sobá. Não é exagero: em dias de maior movimento, bancas tradicionais do Mercadão relatam vender cerca de 100 porções de sobá por dia. A repercussão do fenômeno já cruzou o oceano — a rede de televisão Ryukyu, de Okinawa, no Japão, chegou a produzir reportagem mostrando como os okinawanos desenvolveram sua cultura em Campo Grande e como o sobá, mesmo "abrasileirado", conquistou espaço e prestígio.

Contar essa história é contar, na prática, como a imigração molda identidade regional — e como um prato pode se tornar mais representativo de uma cidade do que qualquer símbolo oficial.


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