Setembro em chamas: os incêndios no cerrado no mês mais crítico do ano e o que está sendo feito para combatê-los

Às cinco da manhã de uma quinta-feira de setembro, o celular de um brigadista do Parque Nacional de Brasília dispara. No mapa de monitoramento de focos de calor que ele consulta antes mesmo de sair da cama, um ponto vermelho apareceu durante a noite numa área de cerrado denso próxima à divisa norte do parque. Em vinte minutos ele está no carro, em direção ao ponto. Em quarenta minutos, está na beira do fogo com uma ferramenta de combate na mão e a fumaça já começando a subir acima das copas das árvores.

Essa cena — ou variações dela — se repete dezenas de vezes por semana em setembro no Distrito Federal e no entorno. O mês mais crítico da estação seca é também o mês de maior mobilização das forças de combate a incêndios florestais da região, numa batalha permanente entre a velocidade com que o fogo se alastra no cerrado ressecado e a capacidade humana de contê-lo antes que ele se torne um incêndio de grandes proporções.

Por que setembro é o mês mais crítico

A combinação de fatores que torna setembro o mês de maior risco de incêndios no cerrado é resultado do acúmulo de cinco meses de seca — não de uma condição específica de setembro em si. Em maio, quando a estação seca começa, o material combustível ainda está parcialmente úmido das chuvas de abril. Em junho e julho, ele vai secando progressivamente. Em agosto, está completamente seco. Em setembro, está seco e acumulado em quantidade máxima — cinco meses de folhas caídas, gramíneas mortas e galhos secos que formam uma camada de combustível sobre o solo que pode ter trinta ou quarenta centímetros de espessura em alguns pontos.

Esse combustível acumulado, combinado com a umidade do ar que está no seu valor mínimo do ano e com os ventos que em setembro começam a mudar de direção e de intensidade com a chegada das primeiras frentes de instabilidade pré-chuvosas, cria condições para incêndios que se alastram com uma velocidade que surpreende até os combatentes mais experientes.

Um incêndio de cerrado em condições típicas de setembro pode avançar a quinze ou vinte quilômetros por hora numa frente de fogo. Com vento forte e material combustível abundante, essa velocidade pode dobrar. Um fogo que começa às dez da manhã num ponto isolado pode ter consumido centenas de hectares antes do pôr do sol — especialmente se a resposta inicial for lenta.

Quem combate o fogo no DF

O sistema de combate a incêndios florestais no Distrito Federal envolve uma rede de órgãos e de equipes que precisam funcionar de forma coordenada para ser eficaz. O Corpo de Bombeiros Militar do DF é a principal força de resposta — com equipes especializadas em incêndios florestais que são acionadas quando os focos são identificados nas áreas urbanas e periurbanas do Distrito Federal.

O Instituto Brasília Ambiental — o Ibram — tem brigadas próprias de prevenção e combate a incêndios que trabalham especificamente nas unidades de conservação do DF, fazendo o monitoramento preventivo, a manutenção dos aceiros e o primeiro combate quando os focos aparecem nas áreas protegidas. Em setembro, essas brigadas estão em regime de plantão permanente — com equipes de prontidão vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

O ICMBio é responsável pelo combate a incêndios dentro do Parque Nacional de Brasília — a unidade de conservação federal que ocupa 42 mil hectares no noroeste do DF e que é, pela combinação de tamanho, biodiversidade e proximidade com a área urbana, uma das prioridades máximas do sistema de proteção.

As brigadas comunitárias e rurais, formadas por moradores e proprietários de terras nas áreas de maior risco, complementam esse sistema com uma presença local que os órgãos governamentais não conseguem replicar em escala suficiente. Um brigadista comunitário que mora numa propriedade rural próxima a uma área de proteção pode detectar e começar a combater um foco antes mesmo que o sistema de monitoramento por satélite o identifique — uma vantagem de tempo que pode fazer a diferença entre um foco controlado e um incêndio de grandes proporções.

As ferramentas do combate moderno

O combate a incêndios florestais evoluiu significativamente nas últimas décadas, e o sistema do DF incorporou progressivamente ferramentas e técnicas que aumentaram a eficácia das ações de prevenção e resposta.

O monitoramento por satélite, disponível em tempo quase real através do sistema do INPE, permite identificar focos de calor com uma precisão e uma velocidade que as patrulhas terrestres nunca poderiam oferecer. O sistema FIRMS — Fire Information for Resource Management System —, desenvolvido pela NASA e amplamente usado no Brasil, disponibiliza dados de focos de calor atualizados a cada poucas horas para qualquer pessoa com acesso à internet — o que significa que os gestores do sistema de proteção podem tomar decisões de mobilização de recursos com base em informações recentes e georreferenciadas.

Os drones têm sido incorporados ao sistema de monitoramento e combate do DF como ferramentas de reconhecimento que permitem avaliar a extensão e a direção de propagação de um incêndio sem expor combatentes a riscos desnecessários. Um drone equipado com câmera térmica consegue mapear uma frente de fogo com uma precisão que nenhum observador terrestre pode igualar, fornecendo informações que permitem posicionar as equipes de combate de forma mais estratégica e mais segura.

Os aceiros — faixas de vegetação cortada ou queimada de forma controlada que funcionam como barreiras contra o avanço do fogo — continuam sendo uma das ferramentas preventivas mais eficazes. A manutenção dos aceiros exige trabalho físico intenso e planejamento cuidadoso, mas o investimento preventivo é muito menor do que o custo de combater um incêndio de grandes proporções depois que ele ultrapassou os limites que os aceiros deveriam conter.

As histórias de quem está na linha de frente

Por trás dos dados de satélite e dos protocolos de resposta estão pessoas — brigadistas, bombeiros, agentes ambientais — que passam setembro em estado de alerta permanente, respondendo a chamados em horários imprevisíveis e trabalhando em condições que combinam calor intenso, fumaça densa e o estresse físico e psicológico de combater um elemento que não negocia.

Os brigadistas do Ibram que trabalham nas unidades de conservação do DF descrevem setembro com uma mistura de adrenalina e exaustão que é difícil de transmitir para quem não viveu. As semanas de setembro podem ter dias completamente tranquilos — sem foco, sem chamado, só a rotina de monitoramento e manutenção — intercalados com dias de combate ininterrupto que começam de madrugada e terminam depois do anoitecer, com o brigadista voltando para casa com a roupa impregnada de fumaça e o corpo pedindo descanso que o próximo chamado pode interromper a qualquer momento.

Essa irregularidade é um dos aspectos mais desgastantes do trabalho. Não é a intensidade constante — é a alternância imprevisível entre a espera e a ação, que mantém o sistema nervoso em estado de alerta mesmo nos momentos de aparente calmaria.

O que ainda falta

Apesar dos avanços nos sistemas de monitoramento e nas técnicas de combate, o sistema de proteção contra incêndios no DF ainda tem lacunas que setembro expõe com uma clareza que nenhum relatório técnico consegue obscurecer.

O número de brigadistas permanentes ainda é insuficiente para a extensão de área que precisa ser protegida. Em setembro, quando a demanda está no pico, a diferença entre o efetivo disponível e o efetivo necessário para uma cobertura adequada de todas as unidades de conservação e áreas de risco do DF fica mais visível — e mais perigosa.

O equipamento de alguns órgãos ainda está aquém do necessário. Veículos adaptados para terreno de cerrado, equipamentos de proteção individual para os brigadistas, sistemas de comunicação que funcionem em áreas sem cobertura de celular — há itens de infraestrutura básica que ainda faltam em algumas equipes.

E a causa raiz do problema — as ignições que iniciam os incêndios — ainda não recebe a atenção preventiva que merece. A maioria dos incêndios de setembro tem origem humana e poderia ser evitada com fiscalização mais efetiva, educação ambiental mais consistente e punição mais rigorosa para quem ateia fogo em área de cerrado protegida. Combater o fogo depois que ele começa é necessário e heroico. Impedir que ele comece é mais eficaz e menos custoso — e ainda não foi priorizado com a seriedade que a situação exige.

Setembro passa. O cerrado fica.

Cada setembro que passa deixa marcas — nas áreas de cerrado que foram consumidas, nas espécies que perderam habitat, nos aquíferos que ficaram sem a proteção da vegetação que os alimentava. Essas marcas não desaparecem com as primeiras chuvas de outubro — elas ficam, acumulando-se ano a ano, numa trajetória de degradação que é mais lenta do que a destruição imediata do desmatamento mas igualmente preocupante para a saúde do bioma a longo prazo.

Os brigadistas que passam setembro combatendo o fogo sabem disso melhor do que ninguém. Eles veem, ano após ano, as mesmas áreas queimando — porque o combate ao fogo, por mais eficaz que seja, não resolve a questão da ignição recorrente nas mesmas zonas de risco. E eles entendem, com a clareza de quem trabalha na linha de frente, que o cerrado precisa de muito mais do que brigadas bem equipadas para sobreviver ao século XXI.

Precisa de políticas. Precisa de fiscalização. Precisa de educação. Precisa de uma sociedade que entenda que o cerrado que queima em setembro é o mesmo cerrado que regula a água, o clima e o ar da cidade o ano inteiro.

Setembro passa. O cerrado fica. E a escolha sobre em que estado ele vai ficar é, em grande parte, nossa.


Alô Centro Oeste