Universidade de Brasília: 64 anos de uma instituição que ajudou a inventar o Brasil contemporâneo

Em abril de 1962, dois anos depois da inauguração de Brasília, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira sentaram diante de uma folha em branco e começaram a desenhar uma universidade. Não apenas um conjunto de cursos e departamentos — uma ideia de universidade, um projeto de como o ensino superior brasileiro poderia ser diferente do que era até então. O resultado foi a Universidade de Brasília, uma instituição que desde o primeiro dia desafiou convenções, provocou debates e formou gerações de profissionais, pesquisadores e cidadãos que ajudaram a construir o Brasil contemporâneo.

Sessenta e três anos depois, a UnB é a quarta maior universidade federal do Brasil em número de estudantes e uma das mais importantes em produção científica, diversidade de cursos e impacto cultural. Mas sua importância vai além dos números — está na história que ela carrega, nas batalhas que travou e na forma única como se relaciona com a cidade que a abriga.

O projeto que ninguém havia tentado

O projeto pedagógico original da UnB, concebido por Darcy Ribeiro com a colaboração de alguns dos maiores intelectuais brasileiros da época, era radicalmente diferente do modelo de universidade que existia no Brasil nos anos 1960. Em vez de faculdades isoladas, cada uma com seu próprio currículo fechado, a UnB propunha uma estrutura de institutos e faculdades interligados, com um ciclo básico comum a todos os estudantes antes da especialização, e com uma ênfase na pesquisa e na extensão que as universidades brasileiras da época raramente praticavam.

A ideia era formar não apenas profissionais competentes em suas áreas, mas cidadãos com uma compreensão ampla da realidade brasileira — capazes de conectar o conhecimento técnico com as questões sociais, políticas e culturais do país. Era uma visão humanista de universidade que Anísio Teixeira havia desenvolvido ao longo de décadas de reflexão sobre a educação brasileira e que Darcy Ribeiro transformou em projeto institucional concreto.

Esse projeto não sobreviveu completamente ao golpe militar de 1964. A intervenção dos militares na universidade — que incluiu a demissão e o exílio de professores, a prisão de estudantes e a imposição de uma estrutura administrativa mais convencional — desmantelou partes importantes do projeto original. Mas a semente plantada por Darcy e Anísio nunca morreu completamente, e a UnB continuou sendo, mesmo nos anos mais duros da ditadura, uma instituição com uma identidade intelectual própria e uma resistência ao autoritarismo que a distinguiu de muitas outras universidades brasileiras.

A resistência que a ditadura não apagou

O episódio mais dramático da relação entre a UnB e a ditadura militar aconteceu em outubro de 1965, quando tropas do Exército invadiram o campus e prenderam estudantes e professores. A resposta da comunidade universitária foi uma das mais corajosas da história da resistência acadêmica brasileira: 223 professores — a maioria do quadro docente da época — assinaram uma carta de demissão coletiva em protesto contra a intervenção militar.

Essa demissão em massa deixou a universidade sem grande parte de seus melhores professores e comprometeu seriamente a qualidade do ensino por anos. Mas criou um legado moral que a UnB carrega até hoje — a consciência de que a autonomia universitária e a liberdade de pensamento são valores pelos quais vale pagar um preço alto.

Nos anos seguintes, a UnB foi palco de manifestações estudantis, de publicações clandestinas e de uma vida intelectual que, mesmo sob pressão constante, manteve acesa a chama da resistência democrática. Professores que voltaram do exílio trouxeram experiências e perspectivas que enriqueceram o debate acadêmico. Estudantes que passaram pela UnB nesses anos difíceis carregaram consigo uma formação política que foi fundamental para o processo de redemocratização dos anos 1980.

O campus que Niemeyer projetou

A UnB tem uma vantagem que poucas universidades do mundo podem reivindicar: um campus projetado por Oscar Niemeyer, numa linguagem arquitetônica que dialoga com os palácios e os edifícios institucionais de Brasília sem simplesmente repeti-los. O Instituto Central de Ciências — o ICC, ou Minhocão, como é chamado pelos estudantes — é o maior edifício da universidade e um dos mais singulares do modernismo brasileiro: uma estrutura horizontal de quase 800 metros de comprimento que serpenteia pelo campus com uma escala que só faz sentido vista de cima.

O campus da UnB é, por si só, uma experiência urbana e arquitetônica que vale a visita. As bibliotecas, os restaurantes universitários, os espaços de convivência ao ar livre, as galerias de arte e os teatros que salpicam o campus criam um ambiente de efervescência intelectual e cultural que é difícil de encontrar em qualquer outro ponto de Brasília.

A Biblioteca Central da UnB — a BCE — é uma das maiores e mais bem equipadas do Brasil, com um acervo de mais de um milhão de títulos e uma estrutura de acesso ao conhecimento que beneficia não apenas os estudantes e professores da universidade mas toda a comunidade do DF que tem acesso aos seus serviços.

O que a UnB produziu

Listar o que a UnB produziu em 63 anos de existência seria um exercício que exigiria um livro — e um livro longo. Mas alguns marcos valem o registro.

A pesquisa em cerrado desenvolvida na UnB é referência mundial. O Departamento de Ecologia, o Instituto de Ciências Biológicas e o Centro de Desenvolvimento Sustentável da universidade produziram alguns dos estudos mais importantes sobre a biodiversidade, a hidrologia e a dinâmica ecológica do cerrado — estudos que fundamentam políticas públicas de conservação e que são citados em publicações científicas do mundo inteiro.

Na área das ciências humanas e sociais, a UnB formou gerações de antropólogos, sociólogos, cientistas políticos e juristas que influenciaram profundamente o pensamento brasileiro sobre temas como direitos indígenas, relações raciais, democracia e direitos humanos. O Departamento de Antropologia da UnB, fundado por Darcy Ribeiro, foi um dos primeiros no Brasil a desenvolver pesquisas sistemáticas sobre os povos indígenas brasileiros — pesquisas que tiveram impacto direto na legislação indigenista e na Constituição de 1988.

Na arte e na cultura, a UnB foi berço de movimentos que marcaram a história cultural do DF e do Brasil. O rock dos anos 1980 — com bandas como Legião Urbana e Capital Inicial que se formaram em torno da universidade — é o exemplo mais famoso, mas há dezenas de artistas visuais, cineastas, escritores e músicos que começaram suas trajetórias no ambiente cultural da UnB e que hoje têm reconhecimento nacional e internacional.

Os campi que levaram a universidade para além do Plano Piloto

Um dos desenvolvimentos mais importantes da UnB nas últimas décadas foi a criação de campi fora do Plano Piloto — uma expansão que levou a universidade para regiões do DF que historicamente tinham menos acesso ao ensino superior público de qualidade.

O campus de Planaltina, inaugurado em 2006, foca em ciências agrárias e em questões de sustentabilidade rural — temas especialmente relevantes para uma região administrativa com forte tradição agrícola. O campus de Ceilândia, inaugurado em 2008, tem cursos de saúde que atendem uma região administrativa com enorme demanda por profissionais de saúde formados localmente. O campus do Gama, também inaugurado em 2008, tem foco em engenharias e tecnologia.

Essa expansão não resolveu todos os problemas de acesso ao ensino superior no DF — a demanda por vagas continua muito maior do que a oferta — mas representou um passo importante no sentido de levar a universidade pública para onde ela é mais necessária, não apenas para onde ela é mais conveniente.

Uma universidade que ainda está sendo construída

A UnB de 2026 é uma instituição muito diferente da que Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira conceberam em 1962 — e ao mesmo tempo carrega, de formas que às vezes surpreendem, traços do projeto original. A interdisciplinaridade que o projeto fundador valorizava continua sendo uma característica que distingue a UnB de universidades mais compartimentalizadas. A consciência política e social que a história de resistência da instituição cultivou continua presente na cultura universitária, mesmo com todas as transformações pelas quais o ambiente acadêmico passou.

Há desafios sérios — de financiamento, de infraestrutura, de acesso, de valorização dos servidores e professores. São desafios que a UnB compartilha com o sistema de ensino superior público brasileiro como um todo, e que exigem respostas que vão além da capacidade de uma única instituição.

Mas aos 64 anos, a UnB continua sendo o que Darcy Ribeiro sonhou que ela seria: um lugar onde o Brasil pensa sobre si mesmo. Um lugar onde as perguntas mais difíceis sobre o que somos e o que queremos ser continuam sendo feitas, com a liberdade e a seriedade que elas merecem.


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