Goiás Velho: por que a antiga capital goiana é uma das cidades mais importantes do Brasil e pouca gente sabe disso

Existe um tipo de cidade que não precisa se anunciar. Que não tem campanha de marketing turístico com jingles e outdoors, que não aparece nas listas de "destinos imperdíveis" das revistas de bordo, que não ganhou fama de um dia para o outro por causa de um programa de televisão ou de um post viral. Ela simplesmente existe — quieta, consistente, extraordinária — e espera, com a paciência de quem tem mais de dois séculos de história, que as pessoas certas encontrem o caminho até ela.

A cidade de Goiás é assim. Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001, berço de Cora Coralina, guardiã de uma arquitetura colonial que sobreviveu ao tempo com uma integridade que cidades maiores e mais famosas perderam décadas atrás — ela está ali, a cerca de 320 quilômetros de Brasília pela GO-070, sendo exatamente o que sempre foi, indiferente à velocidade do mundo contemporâneo e generosa com quem para o suficiente para perceber o que ela tem a oferecer.

A história que a cidade carrega

A cidade de Goiás — chamada de Goiás Velho para distingui-la do estado que leva o mesmo nome — foi fundada em 1727 como arraial de mineração, numa das últimas grandes corridas do ouro da era colonial brasileira. O ouro do Rio Vermelho, que corre pelo centro da cidade, atraiu mineradores de São Paulo e do Nordeste, escravizados africanos trazidos à força, comerciantes e aventureiros de toda sorte — a mistura típica das frentes de mineração colonial que criou, ao longo de décadas, uma cidade com uma identidade cultural rica e complexa.

Em 1739, o arraial foi elevado à categoria de vila e tornou-se a capital da Capitania de Goiás — função que manteria por quase dois séculos, até 1937, quando o governo estadual foi transferido para Goiânia, a nova capital planejada de Goiás. Esse período longo de capital gerou uma concentração de arquitetura civil e religiosa colonial que é rara no Brasil central — igrejas, palácios, casarões, chafarizes e pontes que formam um conjunto urbano de valor histórico e estético excepcional.

A transferência da capital para Goiânia foi, paradoxalmente, o que salvou a cidade de Goiás da modernização destruidora que transformou tantas cidades históricas brasileiras. Com a saída do governo e o declínio econômico que se seguiu, a cidade perdeu a pressão do desenvolvimento que em outros centros levou à demolição de edifícios coloniais para dar lugar a construções modernas. O que poderia ter sido uma tragédia econômica funcionou, em termos de preservação do patrimônio, como uma bênção involuntária.

O que a UNESCO viu

Quando a UNESCO inscreveu a cidade de Goiás na Lista do Patrimônio Mundial em 2001, o documento de candidatura descreveu o conjunto urbano como um exemplo excepcional de cidade colonial portuguesa adaptada às condições do interior do Brasil — com uma arquitetura que respondeu ao clima, à topografia e aos materiais disponíveis de forma que criou uma expressão local do estilo colonial que não existe em nenhum outro lugar com a mesma integridade.

O que essa descrição técnica traduz, na experiência de caminhar pelas ruas da cidade, é uma sensação de completude que poucos conjuntos históricos brasileiros oferecem. As ruas de pedra irregular que seguem o relevo do terreno, as casas coloniais com suas varandas de balaústre e janelas de guilhotina, as igrejas que aparecem a cada virada de esquina com suas fachadas de cal branca e seus interiores barrocos — tudo isso forma um ambiente onde o século XVIII não é uma reconstituição museológica mas uma presença viva, habitada, que continua sendo o cenário cotidiano de uma cidade real.

As igrejas que contam a história

A cidade de Goiás tem sete igrejas históricas num raio que se percorre a pé em menos de uma hora. Cada uma tem sua própria história, seu próprio estilo e sua própria relação com a história social da cidade colonial.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída pelos próprios escravizados africanos no século XVIII, é uma das mais emocionantes do Brasil em termos de significado histórico. Sua fachada simples — sem os ornamentos elaborados das igrejas construídas pela elite colonial — reflete os recursos limitados da irmandade de negros que a ergueu com seu próprio trabalho, nas horas livres do trabalho compulsório. Por dentro, o altar tem detalhes que combinam o barroco europeu com elementos africanos numa síntese que só o Brasil colonial poderia ter produzido.

A Catedral de Sant'Ana, a maior e mais imponente da cidade, tem uma coleção de arte sacra que inclui pinturas e esculturas dos séculos XVIII e XIX de qualidade museológica. O Museu de Arte Sacra da Boa Morte, instalado na Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, tem um acervo que é um dos mais importantes de arte religiosa colonial do Brasil central.

A casa de Cora Coralina

Nenhuma visita à cidade de Goiás está completa sem passar pela casa de Cora Coralina. A residência onde a poeta viveu e escreveu fica às margens do Rio Vermelho, no centro histórico, e é hoje o Museu Casa de Cora Coralina — um dos museus literários mais bem preservados do Brasil.

A casa é pequena e simples — de acordo com a vida que Cora levou, sempre mais rica em palavras do que em bens materiais. Mas cada cômodo foi preservado com uma atenção ao detalhe que permite ao visitante sentir a presença da poeta de uma forma que vai além da visita a uma exposição. A cozinha onde ela fazia doces para vender — porque durante muitos anos foi da produção e venda de doces caseiros que ela sustentou a família — tem os utensílios originais e o fogão a lenha que ela usou por décadas. A mesa onde ela escrevia tem os manuscritos, as canetas, os cadernos.

Sair do Museu Casa de Cora Coralina com os olhos secos é difícil. Não por nenhum efeito especial de iluminação ou de sonoplastia — simplesmente porque a história que o lugar conta é uma história de persistência humana e de grandeza literária que emociona qualquer pessoa sensível a essas coisas.

A gastronomia que a cidade preservou

A culinária de Goiás Velho tem uma autenticidade que as cidades maiores de Goiás perderam na corrida pela modernização dos cardápios. Os restaurantes e lanchonetes do centro histórico servem pratos que remontam à culinária colonial goiana — o empadão goiano com seu recheio de frango, palmito e ovos cozidos numa massa amanteigada, a paçoca de pilão, o arroz com pequi preparado com frango caipira de verdade, os doces de frutas do cerrado que Cora Coralina imortalizou em verso e que ainda são feitos em casa por algumas famílias da cidade.

O doce de leite artesanal, feito no tacho de cobre com o leite das fazendas do entorno, é um dos produtos mais famosos da cidade. As lojas que vendem doces coloniais no centro histórico têm filas nos fins de semana — de brasilienses e turistas que levam caixas para presentear ou simplesmente para comer na viagem de volta.

O restaurante Flor do Ipê, referência consolidada da culinária goiana tradicional na cidade, serve no almoço uma mesa farta de pratos regionais que é um dos melhores argumentos gastronômicos do Centro-Oeste. Chegar cedo — a casa enche rápido nos fins de semana — e pedir o prato do dia é sempre uma aposta segura.

Como ir e quando ir

A cidade de Goiás fica a aproximadamente 320 quilômetros de Brasília pela GO-070 — uma viagem de cerca de três horas e meia de carro, com estrada em boas condições na maior parte do percurso. A GO-070 passa por Anápolis e por Itaberaí antes de chegar à cidade, e o trecho final — que desce do planalto para o vale do Rio Vermelho — oferece uma vista que já é, por si só, um aperitivo do que está por vir.

Agosto é um bom mês para visitar a cidade de Goiás. O clima seco e o céu limpo do planalto central criam condições fotográficas excepcionais para o conjunto histórico, e a temperatura amena — as máximas ficam entre 27 e 30 graus, mais quentes do que em Brasília por causa da altitude menor — torna agradável o passeio a pé pelas ruas de pedra.

Os fins de semana têm mais movimento e mais programação cultural. As semanas têm mais tranquilidade e mais facilidade para conseguir mesa nos restaurantes e quarto nas melhores pousadas. Para uma primeira visita, o fim de semana tem a vantagem da atmosfera mais animada. Para quem já conhece a cidade e quer uma experiência mais contemplativa, a semana é melhor.

Uma cidade que não precisa se anunciar

A cidade de Goiás é uma das respostas mais eloquentes que o Centro-Oeste tem para quem ainda acredita que a região não tem história, não tem cultura, não tem nada de interessante além da soja e do gado. Ela tem mais de dois séculos de história colonial, tem a casa onde nasceu uma das maiores poetas do Brasil, tem igrejas construídas por escravizados africanos que sobreviveram aos séculos, tem ruas que o tempo não conseguiu modernizar.

Ela está esperando. E ela é muito mais do que a maioria das pessoas imagina.


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