Cinema e audiovisual do Centro-Oeste: o que Brasília e Goiás estão produzindo que o Brasil ainda não descobriu

Existe uma cena no documentário brasiliense que resume algo essencial sobre o cinema que está sendo feito no Centro-Oeste: um homem de meia-idade, sentado numa cadeira de plástico na frente de uma casa de Ceilândia, olha para a câmera e conta, com uma calma que só vem de quem já processou o peso da história, como chegou ao planalto central nos anos 1970 e nunca mais voltou. A câmera não corta, não acelera, não busca o ângulo mais dramático. Ela simplesmente fica ali, recebendo aquela história com a mesma paciência com que ela está sendo contada.

Esse gesto — de presença, de escuta, de recusa ao espetáculo fácil — é uma das marcas do melhor cinema que o Centro-Oeste está produzindo. Um cinema que não tem pressa de impressionar, que confia na força do que tem a dizer e que encontrou, nas paisagens e nas histórias do cerrado e das regiões administrativas de Brasília, uma matéria-prima que o cinema nacional mainstream ainda não aprendeu a explorar com a mesma honestidade.

A tradição que poucos conhecem

O cinema no Centro-Oeste não começou ontem. Brasília tem uma história audiovisual que remonta aos anos 1960 — quando a própria construção da capital atraiu cineastas e documentaristas que viram no nascimento de uma cidade do nada um tema sem precedentes na história do cinema mundial.

O documentário Brasília, Contradições de uma Cidade Nova, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1967, é um dos marcos do cinema brasileiro do período e um dos retratos mais honestos e mais incômodos que a nova capital recebeu nos seus primeiros anos. Com um olhar que recusava a celebração fácil do projeto modernista e que insistia em mostrar a contradição entre a utopia arquitetônica do Plano Piloto e a realidade das invasões e das cidades-satélite que cresciam ao redor, o filme antecipou questões que ainda hoje são centrais no debate sobre Brasília.

Essa tradição de um cinema crítico e atento às contradições da cidade continuou nas décadas seguintes, alimentada pela presença da UnB — com seu curso de audiovisual que formou gerações de cineastas — e por uma cena cultural que, apesar de todas as suas limitações, nunca deixou de produzir.

O cinema de Ceilândia que o mundo descobriu

O momento mais visível do cinema do Centro-Oeste na última década foi a emergência de uma produção audiovisual de Ceilândia que chamou a atenção de festivais nacionais e internacionais com uma força que surpreendeu até os mais otimistas da cena local.

O cineasta Adirley Queirós, nascido em Ceilândia, construiu uma obra que é simultaneamente um documento histórico sobre a região administrativa mais populosa do DF e uma experiência cinematográfica radical que desafia as fronteiras entre documentário e ficção científica. Seus filmes — A Cidade É Uma Só?, Branco Sai Preto Fica e Era Uma Vez Brasília — usam a história de Ceilândia como ponto de partida para narrativas que combinam o realismo das condições de vida da periferia brasiliense com elementos de ficção científica e distopia política que criam uma linguagem cinematográfica completamente original.

A Cidade É Uma Só?, lançado em 2011, parte da campanha de erradicação de invasões de 1971 — que deu origem a Ceilândia — para construir uma narrativa que mistura arquivo histórico com personagens ficcionais interpretados por moradores da região. Branco Sai Preto Fica, de 2014, usa como ponto de partida um episódio real de violência policial numa festa de black music em Ceilândia nos anos 1980 para criar uma ficção científica raivosa e inventiva sobre raça, violência e resistência. Era Uma Vez Brasília, de 2017, leva essa linguagem ao limite com uma história de viajante do tempo numa Brasília distópica que é ao mesmo tempo familiar e completamente irreconhecível.

Esses filmes circularam em festivais como Sundance, Locarno e Berlim, receberam prêmios e foram saudados pela crítica internacional como um dos cinemas mais originais produzidos no Brasil contemporâneo. E foram feitos com orçamentos mínimos, em Ceilândia, por pessoas que cresceram ali e que conhecem aquelas ruas e aquelas histórias de dentro.

O documentário que olha para o cerrado

Além do cinema de ficção e da ficção científica periférica de Ceilândia, o Centro-Oeste tem produzido um conjunto de documentários sobre o cerrado e sobre as comunidades que vivem em relação com o bioma que merece muito mais atenção do que recebe.

Documentários sobre as comunidades Kalunga do nordeste goiano, sobre os povos indígenas do cerrado, sobre os ribeirinhos do Araguaia e sobre os agricultores familiares que mantêm práticas tradicionais em meio à expansão do agronegócio têm sido produzidos por cineastas goianos e brasilienses com uma qualidade e uma profundidade que os coloca ao nível dos melhores documentários brasileiros contemporâneos.

Esses filmes raramente chegam às plataformas de streaming mais populares — o que é uma das injustiças mais concretas do mercado audiovisual brasileiro, que distribui com muito mais eficiência o que vem do eixo Rio-São Paulo do que o que vem do Centro-Oeste. Mas eles circulam em festivais, são exibidos em universidades e centros culturais, e encontram seu público de formas que o sistema de distribuição convencional ainda não aprendeu a mapear.

As produtoras que estão mudando o cenário

O ecossistema de produção audiovisual do DF tem crescido nos últimos anos com o surgimento de produtoras independentes que estão construindo uma capacidade técnica e criativa que antes não existia na região.

Produtoras como a Cinco da Norte e a Anavilhana Filmes, entre outras, têm desenvolvido projetos que combinam a demanda do mercado corporativo e publicitário — que garante a sustentabilidade financeira — com projetos autorais que contribuem para a construção de uma identidade cinematográfica regional. É um modelo que funciona em várias cidades brasileiras com cenas audiovisuais vibrantes e que está começando a ganhar escala no DF.

O apoio dos editais de cultura — tanto do governo do DF quanto dos editais federais do Ministério da Cultura e da Ancine — tem sido fundamental para viabilizar projetos que o mercado privado sozinho não financiaria. Mas os cineastas do Centro-Oeste apontam consistentemente para a necessidade de editais com valores mais compatíveis com os custos reais de produção audiovisual e com processos de seleção que levem em conta as especificidades regionais.

O que falta para o cinema do Centro-Oeste crescer mais

A conversa com cineastas e produtores do DF e de Goiás sobre os obstáculos ao crescimento da produção audiovisual regional converge em alguns pontos recorrentes.

A distribuição é o gargalo mais citado. Fazer um filme no Centro-Oeste é cada vez mais viável — os equipamentos ficaram mais acessíveis, a formação técnica melhorou, os editais existem. Mas fazer esse filme chegar ao público além dos festivais e das exibições universitárias ainda é um desafio que o mercado de distribuição não resolveu para as produções regionais fora do eixo Rio-São Paulo.

A formação de público é outro desafio estrutural. O cinema do Centro-Oeste precisa de espectadores que conheçam e valorizem a produção local — e isso exige um trabalho de educação cinematográfica e de criação de circuitos de exibição que vai além do que as salas comerciais, dominadas por blockbusters internacionais, conseguem oferecer.

A conexão com o mercado de streaming é uma fronteira que o cinema do Centro-Oeste ainda está aprendendo a cruzar. As plataformas internacionais como Netflix e Amazon Prime têm investido em produções brasileiras, mas esse investimento tem sido concentrado no eixo Rio-São Paulo. Mudar essa geografia exige que os cineastas do Centro-Oeste desenvolvam projetos que dialoguem com os critérios dessas plataformas sem abrir mão da autenticidade que é o seu maior trunfo.

Uma tela que está se abrindo

O cinema do Centro-Oeste está numa fase de crescimento que tem tudo para se acelerar nos próximos anos. A geração de cineastas que se formou nos anos 2000 e 2010 está na fase mais produtiva da carreira. A infraestrutura técnica da região melhorou. O interesse internacional pela produção audiovisual brasileira fora do eixo Rio-São Paulo está crescendo.

O que falta é que o Brasil descubra o que o Centro-Oeste já está fazendo. Às vezes, a melhor coisa que um crítico de cinema pode fazer é apontar para uma direção e dizer: olha lá. Tem algo muito bom acontecendo.


Alô Centro Oeste