Agronegócio e cerrado: como a maior fronteira agrícola do mundo convive com a necessidade urgente de conservação

O Brasil é o maior exportador mundial de soja, de carne bovina, de frango e de açúcar. Uma parcela muito significativa dessa produção vem do Centro-Oeste — de um território que há cinquenta anos era visto como improdutivo e que hoje alimenta proteína animal para a Europa, a Ásia e os Estados Unidos com uma eficiência que a agricultura mundial reconhece como extraordinária. Essa transformação foi real, foi rápida e teve custos que o país ainda está calculando.

O cerrado é o palco principal dessa história. É o bioma que cedeu suas chapadas planas para a soja, suas pastagens nativas para o gado, suas veredas e nascentes para a irrigação de culturas que exportam água virtual embutida nos grãos. E é também o bioma que, segundo todos os dados disponíveis, não conseguirá continuar cedendo na mesma velocidade sem comprometer os próprios serviços ecossistêmicos dos quais a agricultura depende para existir.

Essa é a tensão central da questão — e ela não tem uma resposta simples.

A transformação que ninguém esperava

Nos anos 1960 e 1970, o cerrado era visto pela ciência agronômica convencional como terra de segunda categoria. O solo do cerrado — profundo, bem drenado, mas extremamente ácido e pobre em nutrientes — era considerado inadequado para a agricultura de larga escala. As chapadas do Brasil central, com sua topografia plana e sua extensão contínua, tinham o relevo ideal para a mecanização, mas a química do solo parecia ser um obstáculo intransponível.

A Embrapa — Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — mudou esse quadro. Com décadas de pesquisa aplicada, os cientistas da Embrapa desenvolveram técnicas de correção do solo do cerrado — principalmente a calagem, que neutraliza a acidez com calcário, e a adubação fosfatada, que supre a deficiência do nutriente mais limitante no cerrado — que transformaram as chapadas em solos produtivos. Desenvolveram também variedades de soja adaptadas ao fotoperíodo e às temperaturas do cerrado, num trabalho de melhoramento genético que levou o Brasil a produzir soja em latitudes tropicais que os manuais agronômicos diziam ser impossíveis.

O resultado foi uma revolução agrícola que transformou o Brasil em potência alimentar global numa velocidade sem precedentes na história da agricultura mundial. O MATOPIBA — a fronteira agrícola que avança sobre os cerrados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — é hoje a última grande fronteira agrícola disponível no planeta, e sua abertura é acompanhada com interesse e com preocupação por instituições financeiras, governos e organizações ambientais do mundo inteiro.

O que a agricultura precisa do cerrado

Há uma ironia que o debate sobre agronegócio e cerrado frequentemente ignora: a agricultura que está destruindo o cerrado depende do cerrado para existir. Não metaforicamente — de forma literal e mensurável.

A água que irriga as lavouras do Centro-Oeste vem dos aquíferos e dos rios que o cerrado nativo alimenta. As nascentes do Rio São Francisco, do Rio Tocantins, do Rio Paraná — todas as bacias que abastecem as principais regiões agrícolas do Brasil central têm origem no cerrado. Quando o cerrado é desmatado, a recarga dos aquíferos diminui, os rios perdem vazão na estação seca e a disponibilidade de água para irrigação cai. É uma relação de causa e efeito que alguns produtores rurais mais atentos já começaram a perceber na prática — rios que tinham água o ano inteiro e que agora secam em agosto.

Os polinizadores — especialmente as abelhas nativas do cerrado — são responsáveis pela polinização de uma parcela significativa das culturas agrícolas da região. O cerrado tem mais de 200 espécies de abelhas nativas, muitas das quais dependem da vegetação nativa para se alimentar e se reproduzir. Quando o cerrado é fragmentado, as populações de abelhas nativas diminuem — e a produtividade das culturas que dependem da polinização pode cair junto.

O microclima das regiões agrícolas é parcialmente regulado pela vegetação nativa remanescente. Estudos mostram que propriedades rurais próximas a manchas de cerrado têm temperaturas ligeiramente mais baixas e umidade do ar ligeiramente maior do que propriedades completamente desmatadas — diferenças que têm impacto real na produtividade das culturas e no estresse térmico do gado.

O que os números dizem

O cerrado já perdeu mais de 50% de sua cobertura vegetal original. Das áreas que restam, uma parcela significativa está fragmentada em manchas isoladas, sem a conectividade necessária para manter a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que um cerrado contínuo fornece.

A taxa de desmatamento do cerrado, embora variável de ano para ano, tem se mantido em patamares que especialistas consideram insustentáveis. Parte dessa perda acontece em propriedades que estão dentro da lei — a reserva legal de 20% exigida pelo Código Florestal para propriedades no cerrado permite que 80% da área seja convertida para uso agropecuário. Parte acontece ilegalmente, em áreas que deveriam ser preservadas mas que são desmatadas aproveitando a fragilidade da fiscalização nas fronteiras mais remotas.

O MATOPIBA concentra hoje as maiores taxas de desmatamento do bioma. A região, que até os anos 1990 tinha cobertura vegetal nativa em grande parte preservada, está sendo convertida numa velocidade que alguns pesquisadores comparam à devastação da Amazônia nas décadas anteriores — com a diferença de que o cerrado tem muito menos atenção política e midiática para frear o processo.

As iniciativas que estão funcionando

A narrativa de que agronegócio e conservação são necessariamente opostos é uma simplificação que não corresponde à realidade do campo. Existem iniciativas, produtores e organizações que estão demonstrando que é possível produzir com alta produtividade mantendo — e em alguns casos restaurando — vegetação nativa.

O movimento de agricultura regenerativa tem ganhado espaço no Centro-Oeste, com produtores que integram lavoura, pecuária e floresta em sistemas que produzem mais por hectare do que os sistemas convencionais, com menor uso de insumos e com manutenção ou restauração da vegetação nativa. O sistema ILPF — Integração Lavoura-Pecuária-Floresta — desenvolvido pela Embrapa e adotado por um número crescente de produtores, é um exemplo de abordagem que a ciência agronômica brasileira desenvolveu especificamente para as condições do cerrado.

Os mercados internacionais estão pressionando pela rastreabilidade e pela sustentabilidade das commodities que compram do Brasil. A União Europeia aprovou legislação que exige, a partir de 2025, que produtos importados não estejam associados ao desmatamento recente — uma pressão que está chegando à cadeia produtiva do agronegócio brasileiro de forma concreta e que alguns especialistas acreditam que será mais eficaz na redução do desmatamento do que qualquer política interna.

O pagamento por serviços ambientais — mecanismos que remuneram produtores por manter vegetação nativa em suas propriedades, reconhecendo os serviços que essa vegetação presta para a sociedade como um todo — é uma abordagem que tem crescido no Brasil mas que ainda está muito aquém do que seria necessário para criar incentivos econômicos competitivos com o desmatamento.

Uma questão de futuro

O agronegócio do Centro-Oeste não vai desaparecer — nem deveria. A produção de alimentos é uma necessidade humana fundamental, e o Brasil tem uma responsabilidade e uma capacidade produtiva que são importantes para a segurança alimentar global. A questão não é se o Centro-Oeste vai continuar produzindo, mas como vai produzir — com quanto cerrado restante, com quanto aquífero disponível, com quanto microclima regulado pela vegetação nativa que ainda existe.

Os produtores que estão pensando no horizonte de trinta ou cinquenta anos — não apenas na safra do próximo ano — já perceberam que a conservação do cerrado não é um obstáculo à produção agrícola. É uma condição para que ela continue sendo possível.

Essa percepção ainda não é majoritária. Mas está crescendo — pressionada pelos mercados internacionais, pela ciência que documenta os serviços ecossistêmicos do cerrado e, cada vez mais, pela experiência prática de produtores que viram rios secarem e produtividade cair em propriedades completamente desmatadas.

O cerrado e o agronegócio precisam encontrar um acordo. O prazo para esse acordo está se esgotando — mas ele ainda é possível. E o Centro-Oeste, que sempre foi a região onde o Brasil inventou soluções que ninguém achava possíveis, tem as condições para inventar mais uma.


Alô Centro Oeste