Viver no entorno de Brasília: o que está mudando nas cidades goianas que crescem na sombra da capital

Existe uma Brasília que não aparece nos mapas oficiais do Distrito Federal. Ela começa exatamente onde o DF termina — na divisa com Goiás, numa linha invisível que separa dois estados mas que a vida cotidiana de centenas de milhares de pessoas atravessa todos os dias sem cerimônia. É a Brasília do entorno — um conjunto de cidades goianas que cresceram ao redor da capital federal com uma velocidade que nenhum planejamento urbano acompanhou e que hoje formam, na prática, uma região metropolitana de facto que a política ainda não aprendeu a reconhecer e a gerir com a seriedade que a situação exige.

Luziânia, Valparaíso de Goiás, Águas Lindas de Goiás, Novo Gama, Cidade Ocidental, Santo Antônio do Descoberto — cada uma dessas cidades tem sua própria história, sua própria personalidade e seus próprios problemas. Mas todas compartilham uma condição fundamental: são cidades que existem, em grande parte, em função de Brasília, e que precisam se reinventar para existir por si mesmas.

Como esse entorno se formou

A história do entorno de Brasília começa, mais uma vez, com os candangos. Quando as regiões administrativas do DF foram sendo criadas para abrigar os trabalhadores que não cabiam no Plano Piloto, o processo de exclusão não parou na fronteira do Distrito Federal. Muitas famílias que não conseguiram se estabelecer nas regiões administrativas do DF — seja por falta de documentação, seja por não terem sido contempladas pelos programas habitacionais, seja simplesmente porque o custo de vida era menor do outro lado da divisa — foram se instalar nas cidades goianas mais próximas.

Esse movimento inicial, que aconteceu principalmente nas décadas de 1970 e 1980, foi amplificado nas décadas seguintes por uma combinação de fatores: o crescimento populacional acelerado do DF, o preço da moradia no Distrito Federal muito acima do que a maioria das famílias de baixa e média renda podia pagar, e a disponibilidade de terra mais barata e menos regulamentada do lado goiano da fronteira.

O resultado foi um crescimento explosivo e desorganizado. Valparaíso de Goiás, por exemplo, passou de pouco mais de 20 mil habitantes em 1991 para mais de 170 mil em 2022 — um crescimento de mais de 700% em três décadas, sem que a infraestrutura urbana crescesse na mesma proporção. Águas Lindas de Goiás tem hoje mais de 200 mil habitantes e é uma das cidades que mais cresceram no Brasil nas últimas décadas — mas ainda enfrenta déficits sérios em saneamento básico, mobilidade e equipamentos públicos.

O cotidiano da fronteira

Para quem vive no entorno e trabalha em Brasília, o dia começa cedo — muito cedo. Os ônibus que saem de Valparaíso e de Novo Gama para o Plano Piloto começam a rodar antes das cinco da manhã, e os trabalhadores que dependem desse transporte precisam estar no ponto antes disso. A viagem pode levar de uma hora a duas horas e meia dependendo do horário e das condições do trânsito na BR-040 e na EPNB — as principais vias de conexão entre o entorno sul e o DF.

Essa equação de tempo e distância define a vida de uma parcela significativa da população do entorno. Sair às quatro e meia da manhã e voltar às sete da noite — depois de uma jornada de trabalho de oito horas — é uma rotina que muitas famílias repetem há décadas, num desgaste físico e emocional que raramente aparece nas estatísticas mas que é uma das realidades mais duras da vida metropolitana de Brasília.

A situação tem melhorado em alguns aspectos. A expansão do metrô, embora ainda não chegue às cidades do entorno, reduziu o tempo de deslocamento de quem mora próximo às estações do DF. Os corredores de ônibus expressos, que conectam algumas regiões administrativas do DF ao Plano Piloto com mais eficiência, beneficiam indiretamente quem vem do entorno e usa essas linhas a partir de pontos de integração. Mas a melhora é insuficiente para a demanda — e as cidades mais distantes, como Águas Lindas, continuam com conexões precárias ao centro do DF.

O que está mudando nas cidades

O entorno de Brasília não é mais apenas um dormitório da capital. Essa é uma das mudanças mais significativas das últimas décadas — uma transformação gradual mas perceptível na economia, na infraestrutura e na identidade dessas cidades.

Luziânia, a mais antiga e mais populosa das cidades do entorno com mais de 220 mil habitantes, tem um centro histórico que antecede Brasília em mais de dois séculos — foi fundada em 1746 como arraial de mineração e tem uma identidade própria que vai além da sua relação com a capital federal. Nos últimos anos, a cidade tem investido na valorização desse patrimônio histórico, com restauração de edificações coloniais e programas de turismo cultural que buscam atrair visitantes que venham por Luziânia, não apenas de passagem para Brasília.

Valparaíso de Goiás tem desenvolvido uma cena comercial e de serviços que compete diretamente com o DF em alguns segmentos — shopping centers, supermercados e redes de serviços que atraem moradores do próprio DF em busca de preços mais baixos e menos trânsito. Essa competição econômica, que seria impensável há vinte anos, é um sinal de maturidade urbana que as cidades do entorno estão conquistando gradualmente.

Novo Gama e Cidade Ocidental, menores e com infraestrutura mais precária, ainda dependem mais intensamente de Brasília para serviços de saúde, educação e emprego de maior qualificação. Mas mesmo nessas cidades, o surgimento de pequenos polos comerciais locais e de equipamentos públicos que antes inexistiam indica uma trajetória de desenvolvimento que, ainda que lenta, está acontecendo.

Os desafios que persistem

Saneamento básico é o desafio mais urgente e mais negligenciado do entorno de Brasília. Cidades como Águas Lindas e Santo Antônio do Descoberto ainda têm parcelas significativas de sua população sem acesso a esgotamento sanitário adequado — um problema de saúde pública com consequências diretas na qualidade da água dos rios que abastecem tanto o entorno quanto o próprio DF.

A segurança pública é outro desafio persistente. O entorno do DF concentra alguns dos índices de violência mais altos do Brasil central, numa combinação de fatores que inclui a densidade populacional, a desigualdade social, o déficit de equipamentos públicos e a presença de organizações criminosas que exploram a fronteira estadual como vantagem operacional.

A governança metropolitana — ou a falta dela — é o problema estrutural que está por trás de todos os outros. O entorno de Brasília é gerido por municípios goianos com recursos limitados, com pouca articulação entre si e com o governo do DF, e sem um instrumento de planejamento metropolitano que possa coordenar investimentos em mobilidade, saneamento, habitação e desenvolvimento econômico de forma integrada.

A Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno — a RIDE — existe no papel desde 1998, mas nunca teve os instrumentos de governança e os recursos necessários para funcionar como um verdadeiro mecanismo de gestão metropolitana. É uma estrutura que precisaria ser profundamente reformada para dar conta da complexidade e da urgência dos problemas que a região enfrenta.

Uma identidade que está se formando

No meio de todos esses desafios, algo interessante está acontecendo no entorno de Brasília: uma identidade própria está emergindo. Os jovens que nasceram em Valparaíso ou em Luziânia nos anos 1990 e 2000 não se identificam como brasilienses frustrados que moram do lado de fora — eles se identificam como moradores de suas próprias cidades, com orgulho pela história local e com uma perspectiva crítica sobre a relação desigual com a capital.

Essa geração está produzindo cultura — música, arte urbana, literatura, gastronomia — que mistura a herança nordestina e goiana dos avós com a experiência urbana de crescer numa cidade que se inventou às pressas e que ainda está descobrindo o que quer ser. É uma cultura periférica no sentido geográfico, mas central no sentido de vitalidade e autenticidade.

O entorno de Brasília não é apenas o problema urbano mais complexo do Centro-Oeste. É também onde algumas das histórias mais interessantes da região estão sendo escritas — por pessoas que construíram suas vidas numa fronteira e que aprenderam, com ela, que as fronteiras são sempre mais permeáveis do que os mapas sugerem.


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