Existe uma literatura do cerrado. Não como categoria editorial nem como movimento literário com manifesto assinado, mas como realidade — um conjunto de obras que nasceu da terra vermelha, das veredas, das cidades de pedra do interior goiano e do planalto que o Brasil decidiu transformar em capital. É uma literatura que tem raízes no século XIX e que continua sendo escrita hoje, por vozes que o mercado editorial concentrado no eixo Rio-São Paulo ainda não aprendeu a amplificar com a intensidade que merece.
Conhecer esses escritores é conhecer o Centro-Oeste por dentro — pela linguagem, pela memória, pela forma como uma região inteira enxerga a si mesma quando decide se colocar em palavras.
Cora Coralina: a voz de Goiás Velho
Nenhuma conversa sobre literatura do Centro-Oeste começa em outro lugar que não seja Cora Coralina. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas — seu nome de registro, que ela trocou pelo pseudônimo poético ainda jovem — nasceu em 1889 na cidade de Goiás, então capital do estado, e passou a maior parte de sua vida naquela cidade de pedra e silêncio às margens do Rio Vermelho.
Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 76 anos — uma história de postergação que diz tanto sobre o lugar reservado às mulheres escritoras do interior quanto sobre a teimosia de quem sabe que tem algo a dizer e espera, pacientemente, pelo momento de dizer. Poemas da Becos foi publicado em 1965 e revelou ao Brasil uma voz que combinava o lirismo da memória com a dureza da vida provinciana, o amor pela cidade natal com a consciência das suas limitações, a ternura do cotidiano com a profundidade do tempo.
Seus poemas falam de becos, de festas antigas, de mulheres que viveram à margem da história oficial, de frutas e sabores e cheiros que só existem no interior goiano. É uma poesia de lugar — inconfundivelmente situada numa geografia específica, mas universalmente reconhecível em sua humanidade. Carlos Drummond de Andrade, que a conheceu e a admirou, disse que ela era maior do que ele. Poucos elogios na literatura brasileira têm mais peso do que esse.
A casa de Cora Coralina em Goiás Velho, às margens do Rio Vermelho, é hoje um museu que preserva seus manuscritos, seus objetos pessoais e a atmosfera daquela cidade que ela transformou em literatura. Uma visita a esse museu é uma das experiências mais emocionantes que o Centro-Oeste oferece a quem ama literatura.
Bernardo Élis: o realismo cruel do sertão goiano
Se Cora Coralina escreveu o cerrado com ternura e lirismo, Bernardo Élis o escreveu com uma crueza que ainda hoje surpreende o leitor desprevenido. Nascido em Corumbá de Goiás em 1915, Élis construiu uma obra de contos e romances que retratou a vida do sertão goiano com um realismo que não poupava nem a violência das relações sociais nem a dureza das condições de vida do interior.
Sua coletânea de contos Ermos e Gerais, publicada em 1944, é um dos marcos da literatura regionalista brasileira — comparável, em ambição e qualidade, aos melhores momentos do regionalismo nordestino. Os contos de Élis habitam um mundo de jagunços, coronéis, trabalhadores explorados e mulheres silenciadas, onde a beleza do cerrado e a brutalidade das relações humanas coexistem com uma naturalidade perturbadora.
Bernardo Élis foi o primeiro escritor goiano a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras — uma conquista que demorou mais do que deveria, considerando a qualidade de sua obra, mas que representou um reconhecimento institucional importante da literatura do Centro-Oeste.
José J. Veiga: o fantástico no cerrado
José J. Veiga — José Jacinto Veiga — nasceu em Corumbá de Goiás em 1915, mesmo ano e mesmo município de Bernardo Élis, numa coincidência que a historiografia literária ainda não explicou satisfatoriamente mas que talvez diga algo sobre o que aquele interior goiano do início do século XX tinha de fértil para a imaginação literária.
Veiga é o nome do Centro-Oeste na literatura fantástica brasileira. Seus romances — especialmente A Hora dos Ruminantes e A Casca da Serpente — constroem mundos onde o absurdo se instala no cotidiano com uma naturalidade que deve mais a Kafka do que ao realismo mágico latino-americano com o qual é frequentemente comparado. Em sua obra, as pequenas cidades do interior goiano são palco de situações que fogem completamente à lógica convencional — invasões de animais estranhos, transformações inexplicáveis, poderes que chegam de fora e reorganizam a vida da comunidade — tudo descrito com uma prosa seca e precisa que torna o irreal ainda mais perturbador pela ausência de espanto.
Veiga é um dos escritores brasileiros do século XX que mais merece releitura — e um dos menos lidos fora dos círculos acadêmicos, o que é uma injustiça que qualquer amante de literatura pode começar a corrigir hoje.
Vozes contemporâneas: o cerrado do século XXI
A literatura do Centro-Oeste não parou em Cora Coralina, Bernardo Élis e José J. Veiga. Ela continua sendo escrita por uma geração de autores que herdou essas referências e as está reinventando com as questões do presente.
Adriana Nunes, escritora e pesquisadora brasiliense, tem construído uma obra poética que dialoga com a paisagem do cerrado e com a memória da construção de Brasília de formas que as gerações anteriores não podiam — porque essa história ainda estava sendo vivida, não podendo ainda ser contada com o distanciamento que a literatura exige.
Maria Valéria Rezende, embora pernambucana de nascimento, viveu longos anos no Centro-Oeste e tem em sua obra traços da paisagem e da cultura do planalto central que a situam, ao menos parcialmente, na literatura dessa região. Seu romance Quarenta Dias — vencedor do Prêmio Jabuti — é uma obra que atravessa o Brasil de um lado ao outro e que, no caminho, passa pelo cerrado com uma atenção que poucos escritores do Sudeste dedicam a essa paisagem.
Na poesia, vozes de Ceilândia e de outras regiões administrativas do DF têm produzido uma literatura urbana e periférica que é, simultaneamente, filha do cerrado e filha da cidade — uma combinação que só Brasília, com sua história específica de migrações e de construção forçada de identidade, poderia gerar.
Uma literatura que merece ser lida
O mercado editorial brasileiro tem uma centralização geográfica que desfavorece sistematicamente as literaturas produzidas fora do eixo Rio-São Paulo. Escritores do Centro-Oeste publicam com mais dificuldade, são distribuídos com menos eficiência e recebem menos atenção da crítica — não porque escrevam pior, mas porque o sistema de visibilidade literária no Brasil ainda não aprendeu a olhar para todos os lados com a mesma atenção.
Mas essa situação está mudando, ainda que lentamente. Editoras independentes do Centro-Oeste têm crescido e publicado vozes regionais com mais regularidade. Festivais literários como a FLIP — que já trouxe autores goianos e brasilienses a Paraty — e eventos culturais do DF têm dado visibilidade crescente à literatura do cerrado. E as redes sociais criaram canais de circulação que dependem menos da estrutura tradicional de distribuição editorial.
Ler Cora Coralina, Bernardo Élis e José J. Veiga é uma obrigação de qualquer pessoa que se interesse pela literatura brasileira. Descobrir o que está sendo escrito agora no Centro-Oeste é uma aventura que está disponível para quem quiser embarcar.
O cerrado tem muitas histórias para contar. E sempre teve escritores à altura de contá-las.
Alô Centro Oeste
