Desmatamento zero no cerrado: o que está em jogo e por que a meta ainda parece distante

Quando se fala em desmatamento no Brasil, a conversa quase inevitavelmente vai para a Amazônia. As imagens de queimadas amazônicas circulam pelo mundo, mobilizam governos estrangeiros, geram pressão diplomática e ocupam as manchetes com uma regularidade que reflete, corretamente, a gravidade do problema. Mas há outro bioma brasileiro sendo destruído numa velocidade comparável — em alguns anos, maior — com uma fração da atenção política e midiática que a Amazônia recebe.

O cerrado já perdeu mais da metade de sua cobertura vegetal original. Mais de 50% do bioma foi convertido em pastagens, lavouras, cidades e infraestrutura nas últimas seis décadas. E o desmatamento continua — não na velocidade dos anos mais intensos do passado, mas numa taxa que pesquisadores e ambientalistas descrevem como incompatível com qualquer meta séria de conservação da biodiversidade e do equilíbrio hídrico do Brasil central.

Os números que precisam ser ditos

O cerrado ocupa originalmente cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados — aproximadamente 24% do território nacional. É o segundo maior bioma do Brasil, menor apenas que a Amazônia. E é o bioma tropical mais ameaçado do planeta em termos proporcionais de área já destruída.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que o cerrado perdeu, nas últimas décadas, uma área de vegetação nativa equivalente a vários estados brasileiros somados. A taxa anual de desmatamento, embora variável de ano para ano dependendo das condições econômicas e das políticas públicas em vigor, raramente caiu para níveis que os especialistas considerem seguros para a manutenção das funções ecológicas do bioma.

O que torna esses números ainda mais preocupantes é a distribuição geográfica do que restou. A vegetação nativa remanescente do cerrado está cada vez mais fragmentada — ilhas de natureza separadas por monoculturas e pastagens, sem os corredores ecológicos que permitiriam o deslocamento de animais e a troca genética entre populações. Um cerrado fragmentado não funciona da mesma forma que um cerrado contínuo — mesmo que a área total preservada seja a mesma.

Por que o cerrado é destruído

As causas do desmatamento do cerrado são bem conhecidas e estão, em grande parte, conectadas à expansão da fronteira agrícola brasileira. O bioma ocupa as chapadas planas do Brasil central — exatamente o tipo de terreno que a agricultura mecanizada de larga escala prefere. Com o desenvolvimento das tecnologias de correção do solo ácido do cerrado nos anos 1970 e 1980 — pesquisas conduzidas principalmente pela Embrapa — essas chapadas se tornaram as mais produtivas do mundo para o cultivo de soja, milho e algodão.

O resultado foi uma expansão agrícola extraordinária que transformou o cerrado no celeiro do agronegócio brasileiro. O MATOPIBA — acrônimo que designa a região de expansão agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, já na fronteira do cerrado com outros biomas — é hoje uma das fronteiras de desmatamento mais ativas do Brasil, com taxas de conversão de vegetação nativa que preocupam tanto os ambientalistas quanto os próprios agricultores que dependem dos serviços ecossistêmicos do bioma para manter a produtividade a longo prazo.

A pecuária extensiva é outra causa significativa, especialmente nas áreas de cerrado mais degradado que já não têm aptidão para a agricultura de precisão. E a especulação imobiliária e a expansão urbana desordenada, especialmente ao redor das grandes cidades do Centro-Oeste como Brasília, Goiânia e Campo Grande, adicionam pressão sobre os remanescentes de cerrado próximos às áreas urbanas.

O que a lei protege — e o que não protege

O cerrado tem uma proteção legal significativamente menor do que a Amazônia. O Código Florestal brasileiro estabelece que propriedades rurais no cerrado devem manter 20% de sua área como reserva legal — uma proporção que os especialistas em conservação consideram insuficiente para manter a funcionalidade ecológica do bioma, especialmente considerando que grande parte dessas reservas está em áreas já degradadas ou de menor valor ecológico.

Na Amazônia, a reserva legal obrigatória é de 80% — quatro vezes mais. Essa diferença reflete escolhas políticas feitas décadas atrás que priorizaram a conservação amazônica em detrimento do cerrado, numa hierarquia que os pesquisadores do bioma contestam com argumentos sólidos: o cerrado é tão biodiverso quanto a Amazônia, é o berço das águas do Brasil, e sua destruição tem consequências para o clima e para a disponibilidade hídrica do país inteiro.

As Áreas de Preservação Permanente — faixas de vegetação obrigatória às margens de rios, ao redor de nascentes e em encostas — se aplicam ao cerrado da mesma forma que a outros biomas. Mas o cumprimento dessas obrigações legais é desigual, e a fiscalização, que depende de recursos e de vontade política, tem sido historicamente insuficiente nas áreas de fronteira agrícola mais ativas.

A Amazônia na manchete, o cerrado no silêncio

A disparidade de atenção entre a Amazônia e o cerrado tem causas complexas que vão além da simples injustiça midiática. A Amazônia tem uma narrativa internacional estabelecida — é a floresta tropical mais famosa do mundo, símbolo global da biodiversidade e das mudanças climáticas, com um apelo visual e emocional que mobiliza públicos em todos os continentes. O cerrado, com suas árvores tortas e sua aparência árida à primeira vista, não tem o mesmo apelo imediato para quem não o conhece de perto.

Há também uma questão de interesses econômicos. A soja e o milho do cerrado alimentam cadeias globais de proteína animal — ração para aves e suínos que abastecem mercados na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Questionar o desmatamento do cerrado é, indiretamente, questionar a sustentabilidade dessas cadeias — algo que os países importadores têm feito com crescente consistência para a Amazônia mas que ainda não replicaram com a mesma intensidade para o cerrado.

O que daria para fazer diferente

Os pesquisadores e ambientalistas que trabalham com o cerrado têm uma lista de medidas que, se implementadas com consistência, fariam diferença real na taxa de desmatamento. Aumentar a reserva legal obrigatória no cerrado para percentuais mais próximos dos da Amazônia é a medida mais estrutural — mas também a mais politicamente difícil, dado o peso do agronegócio no Congresso Nacional.

Fortalecer o monitoramento por satélite e a fiscalização em campo nas fronteiras de desmatamento ativo, especialmente no MATOPIBA, é uma medida de menor custo político mas que exige investimento consistente em recursos humanos e tecnologia. Criar incentivos econômicos para a manutenção da vegetação nativa — pagamentos por serviços ambientais, certificações de produtos sustentáveis, acesso preferencial a mercados internacionais com rastreabilidade — é uma abordagem que tem mostrado resultados em contextos específicos e que poderia ser escalada.

E há uma medida que depende menos de política e mais de narrativa: contar melhor a história do cerrado. Fazer com que o Brasil e o mundo entendam que o bioma que abastece os rios, regula o clima do Brasil central e abriga uma biodiversidade extraordinária está desaparecendo — e que as consequências disso serão sentidas por todos, não apenas pelos moradores do planalto central.

O cerrado não pede privilégio. Pede igualdade de atenção. E ainda não recebeu.


Alô Centro Oeste