A maioria das pessoas que vai a Alto Paraíso de Goiás vai por causa da Chapada dos Veadeiros. O Parque Nacional é o motivo declarado da viagem, a razão pela qual se acorda cedo, se calça o tênis e se enfrenta a estrada. Isso é completamente compreensível — a Chapada é extraordinária, e quem vai até Alto Paraíso sem visitar o parque perdeu a melhor parte.
Mas quem vai até Alto Paraíso e não presta atenção na cidade também perdeu alguma coisa. Não tanto quanto quem ignorou o parque — mas perdeu. Porque Alto Paraíso é uma daquelas cidades raras que desenvolveram uma identidade própria tão consistente e tão peculiar que a experiência de simplesmente estar ali, caminhando pelas ruas, tomando um café, ouvindo as conversas nos mercadinhos, já vale o deslocamento.
Uma cidade que não se parece com nenhuma outra
Alto Paraíso tem cerca de 8 mil habitantes permanentes — mas sua energia cultural e social parece pertencer a uma cidade muito maior. A explicação está na composição incomum da sua população: ao longo das últimas quatro décadas, a cidade atraiu uma mistura de agricultores locais, comunidades alternativas e intencionais, artistas e artesãos que vieram de grandes centros em busca de uma vida diferente, operadores de turismo de aventura, pesquisadores e estudiosos de práticas espirituais e de cura, e — mais recentemente — nômades digitais que descobriram que a internet de fibra chegou ao cerrado.
Essa mistura cria tensões às vezes, mas cria principalmente uma diversidade de perspectivas e de modos de vida que torna as conversas em Alto Paraíso surpreendentemente ricas. Num mesmo café da manhã numa pousada do centro, é possível sentar ao lado de um agricultor orgânico que nasceu ali, de um músico que veio do Rio nos anos 1990 e nunca voltou, de um terapeuta holístico que atende clientes do Brasil inteiro remotamente, e de um casal de Brasília que está considerando se mudar. Essa coexistência é comum em Alto Paraíso — e é parte do seu charme.
A rua principal e o que ela esconde
A rua principal de Alto Paraíso — a Avenida Ary Valadão — concentra a maior parte do comércio e da vida pública da cidade. À primeira vista, ela parece uma rua de interior goiano comum: lojas de artigos variados, lanchonetes, farmácias, o mercado municipal. Mas quem caminha devagar e presta atenção nos detalhes descobre uma cidade dentro da cidade.
Entre as lojas convencionais, há ateliês de artesanato com peças feitas de madeira do cerrado, cristais da região e fibras naturais. Há livrarias pequenas que vendem títulos de espiritualidade, ecologia e filosofia que não se encontram em livrarias de cidades maiores. Há lojas de produtos naturais e orgânicos com uma variedade de itens feitos na região — óleos vegetais prensados a frio, tinturas de plantas do cerrado, mel de abelhas nativas sem ferrão, cosméticos artesanais — que transformam a compra numa descoberta.
As galerias de arte que aparecem aqui e ali na rua principal e nas transversais expõem trabalhos de artistas locais e de fora que escolheram Alto Paraíso como base. A qualidade é variável — como em qualquer cena artística viva — mas a intenção é sempre genuína, e às vezes se encontra ali uma peça que não existe em nenhuma galeria de cidade grande.
A feira de fim de semana
A feira de produtos orgânicos e artesanato que acontece aos sábados no centro de Alto Paraíso é um dos programas mais recomendados da cidade — independentemente do que mais se planeje fazer no fim de semana. Ela acontece de manhã, começa a encher por volta das oito e vai até o meio-dia, quando os produtores começam a dobrar as bancas.
O que se encontra ali é um retrato fiel do que a região produz e do que seus moradores valorizam. Mel de diferentes espécies de abelhas nativas, cada um com sabor e consistência distintos que surpreendem quem conhecia apenas o mel de abelha europeia. Geleias de frutas do cerrado — cagaita, pequi, buriti, murici — com sabores que não têm equivalente nas geleias industriais. Pães artesanais de fermentação natural, feitos com farinhas integrais e sementes, que saem frescos na manhã da feira. Queijos de produtores locais que mantêm técnicas artesanais que a industrialização não alcançou.
O artesanato da feira tem uma qualidade média superior à de muitas feiras urbanas — talvez porque os artesãos de Alto Paraíso trabalhem num ambiente que exige autenticidade, num mercado de compradores que valorizam o processo tanto quanto o produto. Cerâmicas com formas inspiradas na fauna do cerrado, tecidos naturais com tingimento vegetal, joias em prata e pedras locais, esculturas em madeira de pequizeiro e aroeira.
As comunidades intencionais
Uma das características mais singulares de Alto Paraíso e do seu entorno é a presença de comunidades intencionais — grupos de pessoas que escolheram viver juntas segundo princípios compartilhados de sustentabilidade, espiritualidade ou filosofia de vida alternativa. Algumas dessas comunidades existem há décadas na região, outras são mais recentes, e elas contribuem de forma significativa para a identidade cultural da cidade.
A maioria das comunidades não recebe visitantes de forma indiscriminada — e isso deve ser respeitado. Mas algumas oferecem visitas guiadas, cursos e retiros que permitem ao visitante conhecer de perto como essas formas de vida funcionam na prática. A Fundação Vale do Amanhecer, com sua arquitetura absolutamente singular e sua tradição espiritual própria desenvolvida no Brasil, fica nos arredores de Alto Paraíso e recebe visitantes em horários específicos — uma experiência cultural que não tem equivalente em nenhum outro lugar do mundo.
Gastronomia: comer bem no cerrado
Alto Paraíso desenvolveu, ao longo dos anos, uma cena gastronômica que combina a culinária goiana tradicional com a influência das comunidades alternativas e com a riqueza dos ingredientes nativos do cerrado. O resultado é uma oferta de restaurantes que vai do simples e delicioso ao sofisticado e surpreendente.
O restaurante Frutos do Cerrado, referência consolidada na cidade, serve pratos que usam ingredientes nativos de formas que vão além do arroz com pequi convencional — emulsões de baru, risotos com cagaita, carnes marinadas em licor de jatobá, sobremesas com buriti e mel de meliponíneos. É uma culinária de lugar, no melhor sentido da expressão: não poderia existir em nenhum outro contexto que não fosse o cerrado goiano.
Para quem prefere algo mais simples, os restaurantes de comida caseira do centro servem o almoço goiano completo — arroz, feijão tropeiro, carne assada, mandioca frita, couve refogada — com uma generosidade de porção que lembra que estamos no interior e que mesa boa é mesa farta.
Os cafés e padarias de Alto Paraíso têm uma qualidade que surpreende. O café cultivado em propriedades da região de Goiás chega às xícaras com uma frescura e uma complexidade que os cafés de especialidade das grandes cidades reconheceriam imediatamente. Tomar um café de manhã cedo numa dessas padarias, com o frio do cerrado ainda presente e o dia começando devagar, é um dos prazeres simples que a cidade oferece e que não tem preço equivalente.
Quando o parque fecha
O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros tem horários de visitação que encerram à tarde — geralmente às 18h, dependendo da trilha. Isso significa que quem está em Alto Paraíso tem as noites inteiramente livres para descobrir o que a cidade faz depois que o parque fecha.
E Alto Paraíso não dorme cedo. Os bares do centro têm movimento até tarde nos fins de semana, com música ao vivo que vai do forró ao jazz ao reggae, dependendo da noite e do estabelecimento. Os restaurantes funcionam até tarde. E nas pousadas maiores, é comum que os hóspedes se reúnam nas áreas comuns para conversas que se estendem até a madrugada — o tipo de encontro que só acontece quando pessoas de origens muito diferentes se encontram num lugar que as igualou temporariamente.
O céu noturno de Alto Paraíso é, por si só, um programa. Com pouca poluição luminosa e o ar seco e limpo do inverno, as estrelas aparecem com uma clareza que os moradores de cidades grandes esqueceram que existia. Deitar numa espreguiçadeira no quintal da pousada e olhar para cima por uma hora não é programa de turismo — é necessidade humana que Alto Paraíso satisfaz com uma facilidade que parece quase generosa demais.
A cidade que fica na memória
Alto Paraíso é daqueles lugares que as pessoas visitam pela primeira vez com expectativas moderadas — afinal, vieram pela Chapada — e que saem com a sensação de que a cidade foi a surpresa mais agradável da viagem. Não por nenhuma atração específica e irresistível, mas por uma combinação de qualidades que é difícil de encontrar em outro lugar: a escala humana, a diversidade de pessoas, a beleza do entorno, a comida boa, o ar limpo e a sensação persistente de que ali as coisas acontecem num ritmo que o resto do Brasil esqueceu como praticar.
A Chapada é extraordinária. Mas Alto Paraíso é onde a viagem ganha alma.
Alô Centro Oeste
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/l/3/epjljKT7GNwmvVa8A0LA/page.jpg)