Brasília tem um dos maiores acervos de parques urbanos do Brasil. Não é exagero nem ufanismo — é uma constatação geográfica e histórica. O projeto de Lúcio Costa reservou faixas generosas de área verde entre as quadras residenciais, ao longo dos eixos viários e nas margens do Lago Paranoá. Décadas depois, essas áreas se tornaram parques consolidados, e a eles se somaram unidades de conservação, reservas ecológicas e parques regionais que cobrem uma parcela significativa do território do DF.
No papel, Brasília é uma cidade abençoada em termos de espaço verde urbano. Na prática, a relação da cidade com seus parques é mais complicada — marcada por desigualdades de acesso, por subinvestimento em infraestrutura e por uma cultura de uso que ainda não chegou a todos os brasilienses com a mesma intensidade.
O Parque da Cidade: o gigante que funciona
O Parque da Cidade Sarah Kubitschek é, por qualquer métrica, um dos maiores e mais bem-sucedidos parques urbanos do Brasil. Com mais de 420 hectares no coração do Plano Piloto, ele oferece pistas de caminhada e ciclismo, quadras esportivas, playgrounds, lagos artificiais, churrasqueiras, áreas de piquenique e manchas de cerrado nativo que sobreviveram à urbanização com surpreendente vigor.
Em junho, o Parque da Cidade está no seu melhor. O clima ameno enche as pistas de corredores desde as seis da manhã, as famílias ocupam as mesas de piquenique nos fins de semana e os ipês tardios que ainda têm flores criam aquela fotografia impossível de resistir — amarelo e roxo contra o azul absoluto do céu de inverno.
Mas o Parque da Cidade é um parque do Plano Piloto — geograficamente e socialmente. Quem mora em Ceilândia, Samambaia ou Planaltina não vai ao Parque da Cidade num sábado de manhã com a mesma facilidade que um morador da Asa Sul. A distância, o custo do transporte e a falta de uma cultura estabelecida de uso criam uma barreira real que o parque, por si só, não consegue superar.
O Parque Nacional de Brasília: o pulmão que poucos conhecem por dentro
O Parque Nacional de Brasília — popularmente conhecido como Água Mineral, por causa das piscinas naturais que funcionaram durante décadas como principal atração — é uma unidade de conservação federal de 42 mil hectares que começa a poucos quilômetros do centro do Plano Piloto. É um dos parques nacionais mais próximos de uma capital no mundo, e essa proximidade é tanto um privilégio quanto um desafio de gestão.
O parque abriga cerrado nativo preservado, nascentes que abastecem parte do sistema hídrico do DF, onças-pardas, lobos-guará, tamanduás e uma diversidade de aves que atrai observadores do Brasil inteiro. Suas trilhas — que vão de percursos de uma hora a travessias de dia inteiro — oferecem uma experiência de natureza que cidades dez vezes maiores do que Brasília pagariam muito para ter tão perto do centro urbano.
O problema é que o Parque Nacional é subutilizado pela maioria dos brasilienses. A área das piscinas naturais, que foi fechada para visitação em 2017 por questões de conservação, era o principal ponto de contato popular com o parque — e seu fechamento, embora ambientalmente justificado, reduziu significativamente o fluxo de visitantes. As trilhas existem, estão abertas e são de qualidade, mas exigem agendamento e um nível mínimo de preparo físico que funciona como filtro informal de público.
Os parques das regiões administrativas: o elo mais fraco
A rede de parques do DF fora do Plano Piloto é o capítulo mais problemático dessa história. Ceilândia, Taguatinga, Samambaia e Planaltina — que juntas abrigam mais da metade da população do DF — têm parques urbanos que, com exceções pontuais, ficam muito abaixo do padrão do Parque da Cidade em termos de infraestrutura, manutenção e oferta de atividades.
O Parque Três Marias, em Ceilândia, e o Parque Areal, em Águas Claras, são exemplos de parques que receberam investimentos nos últimos anos e melhoraram sensivelmente. Mas a regra geral ainda é a do subinvestimento — equipamentos quebrados que demoram meses para ser consertados, iluminação insuficiente que torna o uso noturno inseguro, ausência de banheiros em condições adequadas, falta de programação cultural e esportiva que traria mais pessoas ao espaço.
Essa desigualdade não é acidental. Ela reflete a mesma lógica de distribuição desigual de recursos e atenção pública que marca a relação entre o Plano Piloto e as regiões administrativas desde a fundação de Brasília. Um parque bem mantido é um sinal de que o poder público enxerga aquela população como merecedora de qualidade de vida — e o inverso também é verdadeiro.
O que falta para os parques funcionarem melhor
A lista de melhorias necessárias não é misteriosa nem cara em termos relativos. Manutenção regular dos equipamentos. Iluminação adequada para uso noturno seguro. Banheiros limpos e em funcionamento. Programação esportiva e cultural que traga diferentes públicos em diferentes horários. Transporte público que chegue aos parques com frequência suficiente para que quem não tem carro possa usá-los.
Algumas coisas mais estruturais também fazem diferença. A criação de corredores verdes que conectem os parques entre si — permitindo que uma pessoa caminhe ou pedale de um parque a outro sem precisar sair para a avenida — é uma estratégia urbanística que cidades como Curitiba e Recife já implementaram com sucesso e que Brasília, com toda a sua área verde, teria condições de replicar.
A educação ambiental nas escolas públicas, com visitas regulares aos parques como parte do currículo, é outro caminho para criar uma cultura de uso que hoje ainda é mais forte nas famílias de maior renda. Criança que conhece o parque vira adulto que o defende.
Um patrimônio que pertence a todos
Os parques do DF são patrimônio público — construídos com dinheiro de todos os brasilienses e destinados ao uso de todos os brasilienses. Essa afirmação, que parece óbvia, tem implicações concretas: um parque que só é acessível para quem mora perto ou tem carro não está cumprindo sua função pública.
Brasília tem a infraestrutura verde para ser uma das cidades com melhor qualidade de vida urbana do Brasil. O que falta é a decisão política e a vontade coletiva de fazer essa infraestrutura funcionar para todo mundo — não apenas para quem mora nas asas e tem sábado livre para correr no Parque da Cidade.
Os parques estão esperando. A cidade inteira merece usá-los.
Alô Centro Oeste
/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2015/04/21/parque-da-cidade-1r.jpg)