Existe uma palavra que Brasília inventou para si mesma — ou que o Brasil inventou para Brasília, dependendo de como se conta a história. Candango. Palavra de origem incerta, que alguns filólogos rastreiam ao quimbundo e outros ao espanhol, mas que no contexto da construção da capital ganhou um significado próprio e permanente: o trabalhador migrante que veio de longe, geralmente do Nordeste, para erguer com as próprias mãos uma cidade que existia apenas no papel.
Os candangos chegaram aos milhares a partir de 1956. Vieram de Pernambuco, do Ceará, da Paraíba, do Piauí, do Maranhão — mas também de Minas Gerais, de Goiás, do Norte do país. Vieram de ônibus, de caminhão, a pé nos últimos quilômetros. Vieram com pouco na mala e com uma disposição para o trabalho que a construção de uma capital exigia e consumia sem piedade.
Muitos foram embora quando as obras terminaram. Mas muitos ficaram. E são esses — os que ficaram, os que criaram raízes no cerrado, os que tiveram filhos e netos nascidos na cidade que ajudaram a construir — que carregam a história mais verdadeira de Brasília.
Seu Raimundo, 50 anos de Ceilândia
Raimundo Ferreira dos Santos saiu do interior do Piauí em 1959 com dezessete anos e uma indicação de um primo que já estava trabalhando nas obras. Chegou de madrugada num acampamento às margens do que seria o Eixo Monumental e foi acordado às cinco da manhã para começar a trabalhar. Carregou pedra, misturou concreto, ajudou a erguer os pilares de edifícios cujos nomes não sabia pronunciar e cujas funções levou anos para entender completamente.
Quando Brasília foi inaugurada em 1960, Raimundo tinha dezoito anos e não tinha para onde voltar. O Piauí que ele deixara era mais pobre do que a memória romantizava, e a cidade nova — mesmo com toda a sua dureza de periferia sem infraestrutura — oferecia trabalho, possibilidade, futuro. Ele ficou.
Em 1971, quando a campanha de erradicação das invasões o transferiu para Ceilândia, Raimundo já tinha mulher, dois filhos e um pequeno negócio de venda de materiais de construção que montara num barraco de madeira. Levou o negócio junto, reconstruiu do zero e passou as décadas seguintes vendo Ceilândia crescer ao redor da sua loja como uma cidade que se inventava a si mesma.
Hoje com mais de oitenta anos, ele ainda abre a loja toda manhã, embora os filhos cuidem da maior parte do movimento. Quando perguntado se voltaria ao Piauí se pudesse, ele responde com uma clareza que não deixa dúvida: "Brasília é minha terra. Nasci lá, mas sou daqui."
Dona Maria, a cozinheira que virou empresária
Maria das Dores Cavalcante chegou a Brasília em 1963, vinda do interior do Ceará, para trabalhar como doméstica na casa de um funcionário público da Asa Sul. Tinha vinte e um anos, não tinha escolaridade formal e conhecia de Brasília apenas o endereço que alguém havia anotado num papel amassado no fundo da bolsa.
O trabalho de doméstica durou dez anos. Nesse tempo, Maria aprendeu a cozinhar os pratos que a patroa pedia — massas, risotos, receitas de livro — sem abandonar o repertório que trouxera do Ceará: o baião de dois, a carne de sol, o cuscuz, o mungunzá. E foi exatamente essa combinação que, anos mais tarde, se tornaria o diferencial do seu negócio.
Em 1975, com dinheiro economizado e um empréstimo da irmã, Maria abriu uma lanchonete em Taguatinga que servia, ao mesmo tempo, marmita para operários e almoço executivo para os funcionários das lojas do comércio local. O segredo era simples: comida de verdade, feita com ingredientes frescos, no ponto certo, com o tempero do Nordeste que metade dos clientes sentia saudade.
A lanchonete virou restaurante. O restaurante formou dois filhos em gastronomia. Hoje, o nome de Maria das Dores está numa placa acima da porta de um estabelecimento que já passou por três reformas e que continua cheio na hora do almoço — com um cardápio que ainda tem, todo dia, o baião de dois da fundadora.
O filho do candango que virou arquiteto
João Paulo Mendes tem quarenta e dois anos e nasceu em Ceilândia. Seu pai veio de Alagoas em 1968 para trabalhar na segunda fase de obras de Brasília — os ministérios, as embaixadas, os edifícios complementares que foram sendo construídos ao longo dos anos 1960 e 1970. Seu avô materno veio ainda antes, em 1957, e trabalhou diretamente nas obras do Palácio do Planalto.
João Paulo cresceu ouvindo histórias sobre a construção da cidade — os andaimes, o calor do verão, os acidentes que aconteciam e que nem sempre eram registrados, a sensação de estar erguendo algo que ninguém havia feito antes. Essas histórias o fascinaram desde criança, e foi em parte por causa delas que ele decidiu estudar arquitetura na UnB.
Hoje ele trabalha como arquiteto e se especializou em patrimônio histórico e requalificação urbana. Um dos seus projetos mais recentes é um levantamento das construções informais de Ceilândia que têm valor arquitetônico e histórico — um trabalho que começa pela premissa de que a cidade construída pelos candangos e seus descendentes tem uma arquitetura própria, criativa e digna de documentação, mesmo que nunca tenha aparecido nos livros de história do modernismo brasileiro.
"Meu avô ergueu o Planalto", ele diz, com uma simplicidade que carrega mais orgulho do que qualquer discurso conseguiria expressar. "Eu quero documentar o que ele e os outros construíram para si mesmos."
A memória que não pode ser perdida
Os candangos que ficaram estão envelhecendo. A geração que chegou nos anos 1950 e 1960 já está, em sua maioria, na casa dos oitenta anos ou além. Suas histórias — dos acampamentos sem água encanada, das obras sob o sol do cerrado, das festas nos barracões que eram ao mesmo tempo moradia e espaço de convívio — correm o risco de se perder se não forem registradas com urgência.
Algumas iniciativas já trabalham nessa direção. O Arquivo Público do DF tem um acervo de depoimentos orais de candangos que é um dos mais importantes do Brasil central. Projetos de história oral desenvolvidos pela UnB e por coletivos culturais das regiões administrativas têm registrado memórias que os livros de história oficial ignoraram. Museus comunitários em Ceilândia e Taguatinga guardam objetos, fotografias e documentos que contam essa história pelo lado de quem a viveu — não pelo lado de quem a planejou.
Mas o trabalho ainda é insuficiente diante da urgência. Cada candango que parte leva consigo uma memória que não existe em nenhum arquivo — a sensação física do trabalho, o cheiro do acampamento, o nome do companheiro que morreu numa queda e foi enterrado sem cerimônia, a alegria estranha de ver uma cidade surgir do nada sob as próprias mãos.
A cidade que lhes deve tudo
Brasília existe porque os candangos existiram. Os palácios de Niemeyer foram erguidos por mãos piauienses, cearenses, alagoanas, paraibanas — mãos que não aparecem nas fotografias oficiais da inauguração, que não foram convidadas para os discursos e que foram, muitas vezes, empurradas para longe da cidade que ajudaram a construir.
Os que ficaram fizeram mais do que sobreviver. Criaram cidades dentro da cidade, inventaram culturas, formaram filhos e netos que hoje são arquitetos, músicos, professores, médicos, artistas. Fizeram de Brasília um lugar real — não apenas um projeto urbanístico, mas uma cidade com história, com ferida, com orgulho e com futuro.
No dia de Santo Antônio, padroeiro dos que buscam o que se perdeu, vale lembrar que a história dos candangos não está perdida. Ela está nas ruas de Ceilândia, nas feiras de Taguatinga, nas histórias que os avós contam para os netos em junho, quando o frio do planalto central faz todo mundo se aproximar um pouco mais.
Brasília tem 66 anos. Os candangos que a construíram têm muito mais do que isso para contar.
Alô Centro Oeste
