Junho é nosso: por que as festas juninas do Centro-Oeste são diferentes de tudo que você já viu

Tem um momento em junho em que Brasília para de ser capital federal e vira arraial. As bandeirinhas aparecem nas janelas dos apartamentos das superquadras, o cheiro de milho cozido toma conta das feiras, e nas regiões administrativas, os salões de festa começam a ensaiar quadrilhas com uma seriedade que rivaliza com qualquer ensaio de carnaval. O mês junino no Centro-Oeste não é uma importação cultural nem uma reprodução nostálgica — é uma celebração que ganhou, ao longo de décadas, uma identidade própria e inconfundível.

Quem acha que as festas juninas pertencem exclusivamente ao Nordeste nunca foi a um arraial em Ceilândia. E quem acha que o Centro-Oeste apenas copia o que o Nordeste inventou nunca prestou atenção suficiente no que acontece aqui.

De onde veio a festa

As festas juninas chegaram ao Brasil com os colonizadores portugueses, que celebravam os santos católicos de junho — Santo Antônio no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro no dia 29 — com fogueiras, danças e comidas típicas. No Nordeste, a festa se enraizou com uma profundidade que a transformou em expressão cultural central da região. O forró, a quadrilha, o casamento caipira, as roupas xadrez — tudo isso é nordestino de origem e de alma.

Mas quando os candangos vieram para Brasília nos anos 1950 e 1960, trouxeram a festa junto com a mala. E a festa, plantada no cerrado, começou a crescer de um jeito diferente. Misturou-se com a culinária goiana, com o ritmo do planalto central, com a diversidade de origens de uma cidade feita de migrantes de todos os cantos. O resultado não é nem nordestino nem goiano nem carioca — é brasiliense, com tudo que essa palavra carrega de mistura e invenção.

O arraial das RAs

Para entender a festa junina de Brasília de verdade, é preciso sair do Plano Piloto. Os grandes arraiais do DF acontecem nas regiões administrativas — e especialmente em Ceilândia, Samambaia, Taguatinga e Planaltina, onde a presença nordestina é mais forte e a tradição da festa foi cultivada com mais cuidado ao longo das décadas.

Em Ceilândia, os arraiais de junho são eventos de bairro que começam na quinta-feira e vão até o domingo, com forró ao vivo, quadrilha, barracas de comida e uma atmosfera de comunidade que os eventos corporativos nunca conseguem reproduzir. As famílias chegam cedo para garantir mesa, os avós dançam com os netos, e as bandas — muitas delas locais, formadas por músicos que tocam forró desde os anos 1980 — sabem exatamente o que o público quer ouvir.

Em Planaltina, uma das cidades mais antigas do DF, a festa junina tem um sabor mais interiorano. As tradições religiosas ainda estão presentes — a missa de São João, a procissão de velas — e a culinária tem um componente goiano forte, com pamonha, curau e arroz com pequi dividindo espaço com os clássicos nordestinos.

A quadrilha que virou arte

A quadrilha junina no Centro-Oeste passou por uma transformação que poucos estados brasileiros acompanharam com a mesma intensidade. O que era uma dança folclórica simples, com figurino de chita e coreografia básica, se tornou em Brasília uma forma de arte cênica elaborada, com coreografias de até quarenta minutos, figurinos autorais, trilhas sonoras compostas especialmente para cada apresentação e temas que vão da história dos quilombolas à mitologia do cerrado.

Os grupos de quadrilha estilizada do DF competem em festivais que atraem público de outros estados e que têm júri técnico, critérios de avaliação detalhados e um nível de produção que surpreende quem vê pela primeira vez. Esses grupos ensaiam o ano inteiro — não apenas em junho — e representam uma economia criativa significativa, empregando coreógrafos, figurinistas, cenógrafos e músicos.

Assistir a uma apresentação de quadrilha estilizada no DF em junho é uma experiência que não tem paralelo em nenhum outro estado. É a festa junina levada ao limite do que ela pode ser — popular na origem, sofisticada na execução.

A mesa de junho

A gastronomia junina no Centro-Oeste tem aquela dupla personalidade que caracteriza tudo na região: uma metade nordestina, outra metade goiana, e uma terceira metade — sim, três metades — que é puramente brasiliense, inventada na hora.

A pamonha de Goiás divide espaço com o cuscuz nordestino. O arroz com pequi aparece ao lado da canjica. O quentão do cerrado — feito com cachaça artesanal, gengibre, jatobá e frutas nativas — compete com o vinho quente de receita mineira que alguém trouxe da família e nunca mais levou de volta. O resultado é uma mesa onde não há regra, só abundância.

As barracas de milho nas feiras e nos arraiais de junho são um capítulo à parte. Milho cozido, milho assado na brasa, pamonha doce e salgada, curau, creme de milho, bolo de milho com queijo — o milho, que é ingrediente central tanto da tradição nordestina quanto da goiana, reina absoluto em junho no planalto central.

Uma festa que é nossa

O junho do Centro-Oeste não precisa se comparar com o São João de Campina Grande nem com o arraial do interior paulista. Ele tem sua própria grandeza — uma grandeza feita de mistura, de improviso e de uma lealdade à festa que atravessou gerações e atravessou o Brasil inteiro antes de chegar até aqui e criar raízes.

Quando as bandeirinhas aparecem e o cheiro de milho toma conta da cidade, Brasília lembra, por um mês inteiro, de onde veio. E celebra com a alegria de quem sabe que pertence a um lugar — mesmo que esse lugar tenha sido inventado ontem.


Alô Centro Oeste