Junho foi nosso: um balanço do mês mais festeiro do Centro-Oeste

Junho chegou com bandeirinhas e vai embora com fumaça de fogueira nos cabelos. É assim todo ano no Centro-Oeste — o mês entra festeiro, vive intensamente e sai deixando uma saudade desproporcional ao tempo que durou. Trinta dias que parecem uma estação inteira, com começo, meio e fim bem definidos, com cheiros e sabores e sons que não existem em nenhum outro mês do calendário.

Agora que o ciclo junino se encerra e julho bate na porta com seu frio mais seco e seu céu ainda mais azul, vale parar um momento para olhar para trás e reconhecer o que foi esse junho de 2026 no planalto central.

As festas que não decepcionaram

Os arraiais do DF cumpriram, mais uma vez, a promessa de reunir pessoas que não se viam há meses em torno de uma mesa, uma fogueira e um copo de quentão. Nas regiões administrativas, onde a tradição junina tem raízes nordestinas profundas e uma autenticidade que os eventos corporativos nunca conseguem replicar, as festas aconteceram com aquela energia de comunidade que é o melhor argumento contra quem ainda insiste que Brasília não tem alma cultural.

As quadrilhas estilizadas do DF voltaram a impressionar. Os grupos que passaram meses ensaiando entregaram apresentações que misturaram coreografia elaborada com temas que referenciaram a história do cerrado, a cultura candanga e a identidade das regiões administrativas — um nível de produção que coloca o DF entre os estados com as quadrilhas juninas mais sofisticadas do Brasil.

A véspera de São João, na noite do dia 23, foi o que sempre é: a noite mais animada do mês. Os arraiais atingiram seu pico, as fogueiras acenderam no horizonte e o forró tocou até a madrugada em dezenas de pontos espalhados pelo DF. Uma noite que o Centro-Oeste sabe fazer como poucos.

A comida que aqueceu o inverno

Junho foi generoso na mesa. A pamonha goiana, o curau, o bolo de milho com queijo, o caldo de mocotó das feiras, a canjica com amendoim — tudo isso apareceu com a naturalidade de quem não precisou ser convidado, porque em junho essas comidas simplesmente pertencem ao cardápio coletivo da região.

O quentão merece um parágrafo próprio. Cada família, cada barraca, cada arraial tem sua receita — e cada versão defende com uma convicção que seria engraçada se não fosse completamente justificada. O quentão de junho de 2026 aqueceu mãos, conversas e encontros que o frio do planalto central tornava ainda mais necessários e ainda mais bem-vindos.

O frio que a cidade soube aproveitar

Junho entregou o inverno que os brasilienses esperam o ano inteiro. As manhãs frias que pedem casaco, as noites que justificam o edredom guardado desde o ano passado, os dias de céu absolutamente limpo que fazem a cidade parecer recém-pintada — tudo isso aconteceu com a pontualidade de quem conhece o roteiro.

E a cidade respondeu como sempre responde ao frio: indo para a rua. Os parques cheios de manhã cedo, os bares com mesas na calçada e aquecedor ligado, os restaurantes com menus de inverno que apareceram como se tivessem estado esperando a temperatura certa para se revelar. Brasília em junho é uma cidade que se lembra de que foi feita para ser habitada — e que aproveita essa lembrança com um entusiasmo que o verão quente às vezes dificulta.

O cerrado que floresceu

A natureza foi, como sempre, o melhor espetáculo do mês. Os ipês-amarelos e roxos que começaram a florescer em maio chegaram ao seu auge em junho, cobrindo as superquadras, os parques e as bordas do cerrado com uma paleta de cores que nenhum paisagista poderia planejar com mais precisão. O contraste entre as flores e o azul absoluto do céu de inverno criou aquelas fotografias que todo mundo que vive em Brasília já tirou e continua tirando porque nunca ficam velhas.

As veredas, os córregos, os parques ecológicos — tudo isso existiu em junho com a dignidade silenciosa de quem não precisa de plateia para ser extraordinário. O cerrado não festeja junho como a cidade festeja. Ele apenas continua sendo o que é — resiliente, bonito e completamente indiferente ao calendário humano.

O que junho deixa

Todo junho deixa alguma coisa. Uma memória de festa, um encontro que não teria acontecido em nenhum outro mês, uma música que ficou na cabeça, um prato que alguém prometeu aprender a fazer e talvez aprenda, talvez não. Deixa também aquela saudade específica que só as coisas boas e breves provocam — a saudade de algo que ainda está acabando, que ainda dá para sentir o cheiro mas que já está, definitivamente, do lado do passado.

Julho começa amanhã. O frio vai ficar — provavelmente vai piorar antes de melhorar. O cerrado vai continuar secando, os incêndios vão aparecer no horizonte, a umidade do ar vai cair para números que desafiam o bom senso. Mas o mês que vem também tem suas belezas específicas, seus prazeres de estação, suas razões para ser vivido com atenção.

Por enquanto, junho ainda está aqui. E ele merece uma despedida à altura — com quentão, com forró, com uma última olhada para o céu azul que ele trouxe de presente.

Até o ano que vem, junho. Foi bom demais.


Alô Centro Oeste