Há noites que pertencem a uma categoria especial — aquelas em que a cidade inteira parece ter combinado, sem aviso prévio, de estar acordada e animada ao mesmo tempo. No Centro-Oeste, a noite do dia 23 de junho é uma dessas. A véspera de São João não é apenas o prelúdio de uma data religiosa — é, por direito próprio, a noite mais festeira do ciclo junino, o momento em que os arraiais atingem seu pico, as fogueiras acendem no horizonte e o forró deixa de ser música de fundo para se tornar o centro gravitacional de tudo.
Quem já viveu uma véspera de São João numa cidade do Centro-Oeste — seja em Brasília, em Goiânia, em Pirenópolis ou num vilarejo do interior goiano — sabe que a data tem uma qualidade difícil de descrever para quem não a conhece. Não é apenas uma festa. É um estado de espírito coletivo que começa a se formar dias antes e que atinge seu ápice exatamente quando o relógio se aproxima da meia-noite do dia 23.
O que acontece antes da festa
A preparação para a véspera de São João começa muito antes do pôr do sol. Nas regiões administrativas do DF, os salões de festa e os espaços comunitários que sediaram arraiais durante todo o mês de junho chegam ao dia 23 com uma programação especial — bandas maiores, decoração reforçada, comida em quantidade dobrada. As famílias que têm tradição de fazer festa em casa passam o dia cozinhando: o quentão precisa ficar no fogo por horas para desenvolver o sabor certo, a pamonha precisa ser preparada com antecedência, o bolo de milho que vai sair do forno às dez da noite precisa ser misturado à tarde.
Nas cidades do interior goiano, a preparação é ainda mais elaborada. Em algumas comunidades, a fogueira de São João é montada dias antes — uma pilha cuidadosamente construída de madeira seca que será acesa exatamente à meia-noite, num ritual que mistura o simbolismo religioso do fogo purificador com a alegria popular da festa. O tamanho da fogueira, em algumas tradições do interior, é uma questão de honra comunitária — quanto maior, mais generosa a celebração.
A fogueira e o seu significado
A fogueira de São João não é um elemento decorativo — é o coração simbólico da festa. Na tradição católica popular, o fogo de São João tem uma origem que remonta à Europa medieval: segundo a narrativa bíblica, Isabel, prima de Maria, anunciou o nascimento de João Batista acendendo uma fogueira no alto de uma colina. A tradição de acender fogueiras na véspera do nascimento do santo se espalhou pelo mundo católico e chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses.
No Centro-Oeste, a fogueira ganhou dimensões próprias. Ela é o ponto de encontro da festa — as pessoas se reúnem ao redor dela para conversar, para beber quentão, para namorar, para fazer as simpatias tradicionais que a data inspira. Pular a fogueira de mãos dadas com o par — um gesto que em termos práticos exige uma fogueira relativamente pequena e uma boa dose de coragem — é uma tradição que sobreviveu à urbanização e que aparece até nos arraiais das regiões administrativas de Brasília, onde a fogueira às vezes é substituída por uma versão simbólica e menor mas onde o gesto de pular permanece.
O forró que não para
Na véspera de São João, o forró deixa de ser um gênero musical e se torna uma condição climática. Ele está em todo lugar — saindo das caixas de som dos arraiais, dos carros parados nos semáforos, das janelas dos apartamentos cujos moradores decidiram fazer a festa em casa. No DF, onde a cena de forró tem raízes nordestinas profundas e uma tradição de décadas nas regiões administrativas, a noite do dia 23 é o momento em que essa cena aparece com toda a sua força.
As melhores bandas de forró do DF reservam a véspera de São João para as suas apresentações mais importantes do ano. Os shows começam cedo — às vezes às oito da noite — e vão até a madrugada, com repertório que percorre o forró pé de serra de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, passa pelo forró universitário dos anos 1990 e chega às composições contemporâneas que misturam o ritmo tradicional com influências do pop e do R&B. A pista não para — e o público, que em muitos casos chegou já aquecido pelo quentão servido desde o fim da tarde, não deixa parar.
A quadrilha da meia-noite
Em muitos arraiais do DF e do interior goiano, a meia-noite da véspera de São João tem um ritual específico: a quadrilha de abertura do dia do santo. No exato momento em que o relógio vira, os grupos de quadrilha que passaram semanas ensaiando se apresentam numa coreografia especial — às vezes com elementos de surpresa que o público não esperava, às vezes com um tema que referencia a história da festa ou da comunidade que a organiza.
Essa quadrilha da meia-noite tem uma energia que as apresentações do início da noite raramente alcançam. O público está animado, a noite está no seu ponto mais festeiro, e os dançarinos — que já se apresentaram em outros momentos do mês e que guardaram para essa noite sua melhor performance — entram na pista com uma disposição que contagia todo o arraial.
A comida que aquece a noite
A gastronomia da véspera de São João é, propositalmente, a gastronomia do calor e do conforto. Com o frio do inverno no planalto central — as noites de junho chegam facilmente aos 12 ou 13 graus em Brasília — a comida quente não é apenas tradição, é necessidade afetiva.
O quentão é a bebida da noite. Feito com cachaça, gengibre, cravo, canela e frutas cítricas, ele chega em canecas fumegantes que aquecem as mãos antes de aquecer o corpo. Cada família, cada barraca, cada arraial tem sua receita — mais gengibre, menos açúcar, com ou sem vinho tinto, com ou sem pedaços de maçã flutuando na superfície. Não há receita errada: há apenas quentões mais memoráveis que outros.
A pamonha, o curau, o caldo de cana quente, o bolo de milho com queijo que sai do forno ainda fumegando — tudo isso compõe uma mesa que é simultaneamente a mesa da tradição e a mesa do prazer. Comer bem na véspera de São João não é um detalhe da festa — é parte estrutural dela.
Uma noite que pertence a todos
A véspera de São João tem uma democracia que poucas festas brasileiras conseguem replicar. Nos arraiais das regiões administrativas do DF, a pista é de todos — o jovem que veio pela primeira vez e o avô que dança forró desde os anos 1960, a criança que ainda não entende a música mas que se move com ela, o casal que está junto há trinta anos e que ainda pula a fogueira de mãos dadas porque sempre fizeram isso e não veem razão para parar.
É essa mistura que torna a noite especial. Não é apenas a música, não é apenas a comida, não é apenas a fogueira — é a coincidência de todas essas coisas acontecendo ao mesmo tempo, para pessoas diferentes que compartilham por algumas horas um mesmo estado de alegria.
São João nasce à meia-noite. E o Centro-Oeste está sempre acordado para recebê-lo.
Alô Centro Oeste
