Dia Mundial do Refugiado: Brasília e a história silenciosa de quem reconstruiu a vida no planalto central
Todo dia 20 de junho, o mundo para por um momento para lembrar que existem mais de 100 milhões de pessoas deslocadas à força no planeta — pessoas que deixaram seus países não por escolha, mas por necessidade, fugindo de guerras, perseguições, violências e colapsos que nenhum ser humano deveria ser obrigado a enfrentar. O Dia Mundial do Refugiado, instituído pela ONU em 2001, é uma data de memória e de reconhecimento — e em Brasília, cidade que foi ela mesma construída por migrantes e que hoje abriga uma das comunidades de refugiados mais diversas do Brasil, ela tem um significado particular.
Brasília não é a primeira cidade que vem à mente quando se pensa em destinos de refugiados no Brasil. São Paulo e o Rio de Janeiro concentram os maiores números absolutos. Mas o DF tem uma comunidade de pessoas em situação de refúgio e de imigrantes humanitários que cresceu significativamente na última década e que transformou, de forma silenciosa e profunda, o tecido social e cultural da capital federal.
Quem escolheu Brasília
Os dados do ACNUR — a agência da ONU para refugiados — e do Comitê Nacional para os Refugiados mostram que Brasília recebe pessoas de dezenas de países diferentes. As comunidades mais numerosas nos últimos anos vieram da Venezuela, do Haiti, da República Democrática do Congo, da Síria e de países africanos de língua portuguesa como Angola e República do Congo.
Cada grupo chegou por razões diferentes e em momentos diferentes. Os haitianos começaram a chegar em números significativos após o terremoto devastador de 2010, que destruiu grande parte da infraestrutura do país e deixou milhões de pessoas sem casa e sem perspectiva. Os venezuelanos chegaram em ondas crescentes a partir de 2015, fugindo do colapso econômico e político que transformou um dos países mais ricos da América do Sul numa das maiores crises humanitárias do hemisfério. Os sírios, congoleses e outros africanos chegaram fugindo de conflitos armados que a mídia brasileira cobre de forma intermitente mas que para quem os vive não têm intermitência nenhuma.
O que trouxe muitos deles especificamente a Brasília foi uma combinação de fatores: a presença de órgãos internacionais e embaixadas que facilitam processos de documentação, a existência de redes comunitárias estabelecidas que ajudam os recém-chegados a se localizar, e uma percepção — nem sempre confirmada pela realidade mas real como motivação — de que a capital federal oferece mais oportunidades de emprego formal do que outras cidades.
A chegada e o recomeço
Reconstruir uma vida num país novo, numa língua diferente, sem os vínculos afetivos e profissionais que levaram décadas para se construir — é uma tarefa que exige uma resiliência que a maioria das pessoas nunca vai precisar demonstrar. Os relatos de refugiados em Brasília descrevem os primeiros meses com uma combinação de gratidão pelo acolhimento e dificuldade com a dureza prática do recomeço.
A língua é o primeiro obstáculo. O português brasileiro tem suas peculiaridades que surpreendem até quem fala outras línguas latinas, e para quem vem do árabe, do créole haitiano ou do lingala congolês, a barreira linguística pode isolar completamente nos primeiros meses. As organizações que trabalham com refugiados em Brasília — como o ACNUR, a Cáritas, a Associação Antônio Vieira e dezenas de grupos comunitários menores — oferecem cursos de português que são, frequentemente, o primeiro ponto de contato com a cidade e com outros refugiados em situação similar.
O mercado de trabalho é o segundo obstáculo. O reconhecimento de diplomas e certificados estrangeiros é um processo burocrático longo e caro que deixa muitos profissionais qualificados — médicos, engenheiros, professores — trabalhando em funções bem abaixo de sua formação durante anos. Um médico sírio que exercia sua profissão em Damasco pode passar anos em Brasília trabalhando como entregador enquanto espera o processo de revalidação do diploma avançar.
O que Brasília ganhou
A presença de comunidades de refugiados e imigrantes em Brasília trouxe contribuições que a cidade ainda está aprendendo a reconhecer e a celebrar. A mais visível é a gastronômica — restaurantes e lanchonetes de culinária haitiana, árabe, congolesa e venezuelana abriram nas regiões administrativas e em algumas áreas do Plano Piloto, introduzindo sabores e técnicas culinárias que enriqueceram a já diversa cena gastronômica da capital.
Na Asa Norte, um pequeno restaurante sírio aberto por uma família que chegou a Brasília em 2016 se tornou, nos últimos anos, um dos endereços mais queridos do bairro — não apenas pela comida, mas pela história visível em cada detalhe do lugar: as fotos de Damasco nas paredes, a música que toca baixa no fundo, o atendimento de uma família inteira que reconstruiu, prato a prato, uma vida que a guerra tentou destruir.
Nas regiões administrativas, a presença venezuelana e haitiana transformou o comércio popular e a economia informal de bairros inteiros. Barbeiros, costureiras, vendedores de rua, prestadores de serviços domésticos — uma economia de proximidade que emprega e é empregada, que integra e ao mesmo tempo luta para se integrar.
Os desafios que persistem
O acolhimento de refugiados em Brasília não é uma história sem sombras. A xenofobia e o preconceito são realidades documentadas — episódios de discriminação no trabalho, na moradia e no espaço público que organizações de direitos humanos registram com regularidade. A dificuldade de acesso a moradia digna empurra muitas famílias de refugiados para situações precárias nas periferias do DF, onde a distância dos serviços de apoio adiciona uma camada extra de dificuldade ao recomeço.
A saúde mental é um desafio que recebe atenção crescente mas ainda insuficiente. Pessoas que passaram por experiências traumáticas — guerra, violência, perda de familiares, travessias perigosas — chegam ao Brasil com necessidades psicológicas que o sistema de saúde público ainda não está totalmente preparado para atender, especialmente com profissionais que falem os idiomas dos refugiados.
Uma cidade que já foi feita de migrantes
Há algo profundamente coerente no fato de que Brasília — uma cidade construída por migrantes internos que chegaram sem nada e reconstruíram suas vidas no cerrado — seja hoje o lar de migrantes internacionais fazendo o mesmo. A história se repete com personagens diferentes e distâncias maiores, mas com a mesma estrutura essencial: pessoas que deixaram para trás o que conheciam e que chegaram a um lugar novo dispostas a começar de novo.
Os candangos nordestinos dos anos 1950 e os refugiados congoleses dos anos 2020 têm mais em comum do que a superfície deixa ver. Ambos chegaram sem rede de segurança, ambos enfrentaram preconceito e condições precárias, ambos construíram comunidade onde não havia nenhuma, e ambos deixaram na cidade que os recebeu uma marca que não se apaga.
No Dia Mundial do Refugiado, Brasília tem razões específicas para lembrar que a hospitalidade não é uma concessão — é uma continuidade. A cidade que existe hoje foi construída por pessoas que vieram de longe e ficaram. As pessoas que chegam hoje de longe também estão construindo a Brasília que vai existir amanhã.
Essa história ainda está sendo escrita. E ela é, como todas as histórias de Brasília, uma história de mistura, de resistência e de pertencimento conquistado com trabalho e com tempo.
Alô Centro Oeste
