O fogo que volta todo ano: como os incêndios no cerrado afetam Brasília e o que pode ser feito

Tem um cheiro que os brasilienses mais antigos reconhecem antes mesmo de olhar para o céu: um cheiro de fumaça seca, levemente adocicado, diferente da fumaça de madeira molhada ou de cozinha. É o cheiro do cerrado pegando fogo. E quando ele aparece — geralmente a partir de junho, mas cada vez mais cedo — é sinal de que a estação mais difícil do ano começou.

Os incêndios no cerrado não são novidade. O fogo faz parte da história ecológica desse bioma há milhares de anos — muitas plantas do cerrado desenvolveram adaptações específicas para sobreviver e até se beneficiar de queimadas periódicas. Mas há uma diferença enorme entre o fogo natural, controlado pelo regime de chuvas e pelas características da vegetação, e o fogo que hoje ameaça Brasília e o Distrito Federal todo ano: um fogo mais frequente, mais intenso, mais difícil de conter, e com consequências que vão muito além das chamas.

Por que o cerrado pega fogo tão fácil

Para entender os incêndios, é preciso entender o cerrado seco. Entre junho e setembro, quando as chuvas cessam completamente, a vegetação rasteira — gramas, herbáceas, arbustos de pequeno porte — seca rapidamente e se transforma em combustível. Uma área de cerrado que parecia verde e viva em março pode estar, em julho, coberta por uma camada espessa de material seco e altamente inflamável.

Nesse cenário, qualquer faísca pode desencadear um incêndio. E as fontes de ignição são muitas: bitucas de cigarro jogadas pela janela do carro, queimadas ilegais para limpeza de terrenos e pastagens, fios de alta tensão em contato com a vegetação, e até o atrito entre bambus e galhos secos em dias de vento forte. A umidade relativa do ar abaixo de 20% — frequente em julho e agosto no DF — transforma o cerrado numa câmara de combustão à espera de uma faísca.

O vento faz o resto. As rajadas que varrem o planalto central durante a estação seca podem fazer um incêndio avançar dezenas de quilômetros em poucas horas, saltando estradas, cruzando córregos e chegando a áreas urbanas antes que qualquer brigada de combate consiga se posicionar.

Onde o fogo mais ameaça Brasília

O Distrito Federal tem hoje cerca de 43% de sua área coberta por vegetação nativa do cerrado — uma proporção significativa para uma unidade federativa tão urbanizada. Essa vegetação se concentra principalmente nas áreas de proteção ambiental, nas reservas ecológicas e nos parques — o Parque Nacional de Brasília (conhecido como Água Mineral), a APA da Cafuringa, a Reserva Ecológica do IBGE e dezenas de unidades menores espalhadas pelo território.

São exatamente essas áreas que ficam na linha de frente dos incêndios. O Parque Nacional de Brasília, que abastece mananciais importantes e serve como pulmão verde da capital, já foi atingido por incêndios graves em múltiplas ocasiões — o mais recente de grande porte em 2017, que destruiu centenas de hectares de cerrado nativo e matou incontáveis animais. A Reserva Ecológica do IBGE, com um dos remanescentes de cerrado mais bem estudados do Brasil, também já foi severamente afetada.

Nas cidades-satélite e nas áreas de expansão urbana do DF, o risco é diferente mas igualmente real: incêndios em terrenos baldios e áreas de cerrado fragmentado chegam aos fundos de quintal de bairros inteiros, ameaçam estruturas elétricas e de abastecimento de água, e forçam evacuações.

O impacto na saúde que pouca gente discute

Os incêndios matam animais, destroem vegetação e consomem toneladas de biomassa. Mas há um impacto que afeta diretamente todos os moradores do DF, independentemente de onde vivem: a qualidade do ar.

A fumaça dos incêndios no cerrado carrega uma carga de partículas finas — o chamado material particulado PM2,5 — que penetra profundamente nos pulmões e pode causar ou agravar uma série de condições de saúde. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias como asma e bronquite são os mais vulneráveis, mas ninguém está imune. Nos dias de incêndios grandes, os hospitais e UPAs do DF registram aumento significativo de atendimentos por problemas respiratórios.

O índice de qualidade do ar em Brasília durante os meses de agosto e setembro — quando os incêndios estão no pico e o vento os aproxima da área urbana — frequentemente entra na faixa de “inadequado” ou “ruim” pelos padrões do Ibama. Nesses dias, o conselho médico é o mesmo de sempre: feche as janelas, evite atividades físicas ao ar livre, use máscara se precisar sair. Um conselho fácil de dar e difícil de seguir numa cidade acostumada a viver do lado de fora.

O que as autoridades têm feito

O combate aos incêndios no DF envolve uma estrutura que inclui o Corpo de Bombeiros Militar, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), o ICMBio — responsável pelo Parque Nacional — e brigadas de voluntários treinados. Nos últimos anos, o governo do DF investiu na formação de brigadas comunitárias em cidades-satélite e em propriedades rurais do entorno, reconhecendo que o combate precisa começar antes que o fogo chegue às unidades de conservação.

A prevenção também avançou com o uso de aceiros — faixas de vegetação cortada ou queimada de forma controlada que funcionam como barreiras para impedir o avanço do fogo. O manejo com fogo prescrito, técnica que usa queimadas controladas em condições específicas para reduzir o acúmulo de material combustível, tem sido gradualmente incorporado ao manejo de algumas unidades de conservação do DF.

O monitoramento via satélite, que permite identificar focos de calor em tempo real, melhorou significativamente a capacidade de resposta rápida. Mas os especialistas são unânimes: nenhuma dessas ferramentas é suficiente se as causas de ignição não forem combatidas com mais vigor.

O que cada pessoa pode fazer

A maioria dos incêndios no cerrado tem origem humana — e isso, paradoxalmente, é uma boa notícia, porque significa que podem ser prevenidos. Algumas medidas individuais fazem diferença real:

Nunca jogar bituca de cigarro pela janela do carro ou em terrenos com vegetação seca. Nunca fazer fogueiras em áreas de cerrado durante a estação seca. Denunciar queimadas ilegais para o Ibram (pelo aplicativo e-Sisema ou pelo 193, do Corpo de Bombeiros). Evitar estacionar carros com catalisador quente sobre gramíneas secas — o calor do escapamento pode iniciar um incêndio.

Para quem mora próximo a áreas de cerrado, manter o entorno da casa limpo de material seco, especialmente folhas e galhos acumulados, reduz o risco de que um incêndio externo chegue à estrutura da casa.

Uma questão de urgência

O fogo que volta todo ano ao cerrado não é inevitável da forma como se tornou. A frequência e a intensidade dos incêndios aumentaram nas últimas décadas em função de uma combinação de fatores que incluem o desmatamento, as mudanças climáticas e a falta de fiscalização sobre as causas de ignição. Reverter essa trajetória é possível — mas exige política pública consistente, educação ambiental séria e uma mudança cultural que trate o cerrado não como um obstáculo ao desenvolvimento, mas como a infraestrutura natural que torna o desenvolvimento possível.

O cerrado guarda a água, regula o clima, abriga a biodiversidade e filtra o ar que os brasilienses respiram. Quando ele queima, todos perdem — mesmo quem está com as janelas fechadas e a televisão ligada, achando que o fogo está longe.

Ele nunca está tão longe quanto parece.


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