Estradas do Centro-Oeste: roteiros de fim de semana saindo de Brasília que valem cada quilômetro

Existe um hábito silencioso entre os brasilienses que moram na cidade há mais tempo: o de pegar o carro na sexta à noite — ou bem cedo no sábado — e desaparecer pelo planalto central afora. Sem aeroporto, sem mala grande, sem roteiro fechado. Só a estrada, o cerrado dos dois lados e a certeza de que, a poucas horas da capital, existe um Brasil que a maioria das pessoas nunca viu.

O Centro-Oeste é generoso com quem tem disposição para dirigir. Num raio de 300 quilômetros de Brasília, é possível encontrar cachoeiras de água cristalina, cidades coloniais com igrejas do século XVIII, chapadas com vistas que parecem pintadas, e pequenas comunidades onde o tempo parece ter feito um acordo diferente com o relógio. Aqui estão alguns dos roteiros que mais valem a ida.

Pirenópolis — 1h30 de Brasília

Se existe uma cidade no entorno de Brasília que conquistou o coração dos brasilienses de vez, essa cidade é Pirenópolis. A cerca de 130 quilômetros da capital pela GO-070, ela reúne numa mesma visita o charme de um centro histórico tombado pelo patrimônio nacional, uma cena gastronômica surpreendentemente sofisticada para uma cidade do interior e um entorno repleto de cachoeiras de acesso fácil.

O centro histórico de Pirenópolis é um dos mais bem preservados de Goiás. As ruas de pedra, as casas coloniais coloridas e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário — construída no século XVIII e parcialmente destruída por um incêndio em 2002, mas ainda de pé e em processo de restauração — criam uma atmosfera que convida a caminhar devagar. Aos fins de semana, a cidade ferve com visitantes, mas guarda cantos tranquilos para quem sabe procurar.

Nas redondezas, as cachoeiras do Rosário, do Lázaro e da Fazenda Babilônia são paradas obrigatórias. A região também tem trilhas de dificuldade média que levam a mirantes com vista para a Serra dos Pireneus — um horizonte que, em maio, com o céu limpo do outono, é de tirar o fôlego.

Chapada dos Veadeiros — 3h de Brasília

Poucos lugares no Brasil concentram tanta biodiversidade, tanta beleza geológica e tanta energia em tão pouco espaço quanto a Chapada dos Veadeiros. O Parque Nacional — Patrimônio Mundial da UNESCO — fica a cerca de 270 quilômetros de Brasília pela BR-020, e a viagem já começa a valer antes mesmo de chegar: a estrada corta o cerrado aberto das chapadas, com gramíneas douradas e árvores retorcidas que parecem esculpidas pelo vento.

O parque oferece trilhas para diferentes níveis de condicionamento físico. As mais procuradas levam às cachoeiras do Carioca e dos Couros — quedas d’água de alturas impressionantes sobre formações rochosas de quartzito que têm mais de 1,8 bilhão de anos. É geologia no sentido mais visceral da palavra: caminhar ali é pisar sobre uma das superfícies mais antigas do planeta.

A cidade de Alto Paraíso de Goiás, que serve de base para visitar o parque, tem uma identidade própria e peculiar — uma mistura de esoterismo, agroecologia e hospitalidade interiorana que não existe em nenhum outro lugar do Brasil. Os restaurantes da cidade, muitos deles com horta própria, servem uma comida que combina ingredientes do cerrado com técnicas contemporâneas.

Uma dica importante: maio é um dos melhores meses para visitar a Chapada. O parque reabre após o período de chuvas, os rios estão cheios mas já não estão com a correnteza perigosa do verão, e o clima é ideal para caminhar.

Cavalcante — 4h de Brasília

Para quem quer sair da rota mais conhecida e está disposto a mais algumas horas de estrada, Cavalcante é uma recompensa à altura. A cidade fica no nordeste goiano, já dentro da área de influência da Chapada dos Veadeiros, e é a porta de entrada para um dos territórios mais impressionantes do Centro-Oeste: o território Kalunga.

Os Kalunga são a maior comunidade quilombola do Brasil, com mais de 200 mil hectares de cerrado habitados pelos descendentes de escravizados que encontraram liberdade nessas chapadas no século XVIII. Visitar o território com um guia local — obrigatório e fundamental — é uma experiência que combina história, cultura viva e natureza intocada de um jeito que poucos destinos brasileiros conseguem oferecer.

A cachoeira da Capivara, dentro do território Kalunga, é um dos segredos mais bem guardados do Centro-Oeste: uma queda d’água longa e poderosa que poucos turistas conhecem, cercada por cerrado nativo e acessível apenas a pé, com guia.

Cristalina — 2h de Brasília

Menos badalada do que Pirenópolis ou a Chapada, Cristalina guarda uma surpresa que justifica a visita: ela é conhecida como a “capital mundial dos cristais”. A cidade fica sobre uma das maiores reservas de quartzo do mundo, e o comércio local de pedras preciosas e semipreciosas é uma atração em si. As lojas e garimpos artesanais vendem desde pequenas pedras brutas até peças lapidadas de qualidade exportável.

Além das pedras, o entorno de Cristalina tem fazendas que produzem algumas das melhores frutas do DF e Goiás — morangos, tomates, pimentões — e que recebem visitantes para colheita direta no pé. É um programa especialmente apreciado por famílias com crianças, e que conecta o turismo à agricultura de uma forma genuína.

Antes de pegar a estrada

Alguns cuidados fazem a diferença nesses roteiros. Em maio, o início da estação seca significa que as estradas de terra — e há muitas nessa região — ficam mais transitáveis, mas também mais empoeiradas. Levar água em quantidade generosa é essencial; o ar seco do planalto central desidrata mais rápido do que parece. E, para os destinos mais distantes, vale checar com antecedência se os atrativos naturais estão abertos: alguns parques e cachoeiras têm horários de visitação ou exigem agendamento.

O Centro-Oeste está esperando. E ele está, como sempre, a apenas algumas horas de Brasília.


Alô Centro Oeste