Comida de festival: as iguarias do Centro-Oeste que tomam conta das festas juninas

Tem uma cena que se repete em todo o Centro-Oeste quando junho chega: o cheiro de milho cozinhando no fogão a lenha, a bandeira colorida cruzando o céu, a quadrilha começando a se arrumar nos bastidores. As festas juninas por aqui não são só uma tradição cultural — são um evento gastronômico à parte, com uma lista de iguarias que reflete séculos de mistura entre o cerrado, a culinária indígena, a influência portuguesa e o jeito goiano de comer bem.

E para quem vive em Brasília, a boa notícia é que não é preciso esperar o arraial do interior para provar o melhor da festa. A cidade tem endereços, feiras e restaurantes que guardam essas receitas com zelo — e maio é o momento perfeito para começar a se preparar.

A rainha de tudo: a pamonha

Se o Centro-Oeste tivesse um prato símbolo, ele seria feito de milho verde ralado, envolvido na própria palha e cozido lentamente. A pamonha é mais do que uma receita — é um ritual. Fazer pamonha em casa ainda é um evento social em muitas famílias goianas e do Distrito Federal: a família se reúne, o milho é ralado na mão (ou no liquidificador, para os mais modernos), a mistura é temperada com sal ou açúcar dependendo da tradição da casa, e as palhas são amarradas com cuidado antes de ir para a panela.

A versão salgada, que pode levar queijo, linguiça ou frango, é a favorita no Centro-Oeste — diferente do Sudeste, onde a pamonha doce costuma dominar. Em Brasília, as casas de pamonha espalhadas pela cidade já trabalham em ritmo acelerado a partir de maio, e as filas nos finais de semana são um bom sinal de qualidade.

O pequi, o ingrediente que divide opiniões

Nenhuma discussão sobre a gastronomia do Centro-Oeste chega longe sem que o pequi apareça. O fruto do pequizeiro — árvore nativa do cerrado — tem um cheiro forte, uma polpa amarela e um sabor que provoca reações extremas: ou a pessoa se apaixona na primeira garfada, ou torce o nariz e não volta mais.

Mas nas festas juninas do interior goiano e nas cidades do entorno de Brasília, o arroz com pequi é presença garantida. A receita é simples — arroz cozido com os frutos inteiros, alho, sal e, às vezes, frango ou carne seca — mas o resultado é uma das comidas mais identitárias da região. Uma dica importante para os iniciantes: nunca morda o caroço do pequi. Ele tem espinhos internos que podem machucar a boca. Come-se raspando a polpa com os dentes, com cuidado e com prazer.

Curau, canjica e a doçaria da festa

As sobremesas juninas no Centro-Oeste seguem a mesma lógica do Brasil inteiro, com algumas variações locais que valem atenção. O curau — creme feito de milho verde batido com leite, açúcar e canela — é uma das mais amadas. Servido morno ou frio, ele tem uma consistência que fica entre o mingau e o pudim, e é o tipo de coisa que some rápido nas mesas dos arraiais.

A canjica, feita de milho branco cozido no leite com açúcar e coco, também tem seu lugar garantido. No Centro-Oeste, é comum encontrá-la com amendoim torrado por cima — uma adição simples que muda completamente a experiência. O bolo de milho, por sua vez, costuma ser mais denso e úmido do que as versões industrializadas que aparecem nas prateleiras de supermercado. O de fubá com erva-doce, assado em forma de buraco, é um clássico que resiste ao tempo.

As bebidas que aquecem o arraial

Com as noites de maio e junho ficando mais frias no planalto central, as bebidas quentes ganham protagonismo nos arraiais. O quentão goiano tem uma personalidade própria: feito com cachaça, gengibre, cravo, canela e frutas como laranja e limão, ele é mais encorpado e aromático do que muitas versões encontradas em outros estados. Nas festas maiores, a receita é preparada em tachos enormes e servida em canequinhas de alumínio — um detalhe que, por alguma razão, melhora o sabor.

O licor de jatobá, feito com o fruto do jatobazeiro — outra árvore nativa do cerrado —, é uma bebida menos conhecida fora da região, mas que aparece com frequência nas festas do interior. Tem sabor levemente adocicado, cor âmbar e um toque terroso que lembra a origem selvagem do ingrediente. Quem encontrar, vale a experiência.

Onde encontrar em Brasília

A cidade tem endereços que levam a sério a gastronomia do Centro-Oeste o ano inteiro, e que intensificam a programação com a chegada do período junino. A Feira do Guará, a Feira dos Importados e os mercados das cidades-satélite — como Ceilândia, Planaltina e Sobradinho — costumam ter barracas com pamonha, curau e quentão de qualidade.

Restaurantes como o Dom Francisco, no Lago Sul, e casas especializadas em culinária goiana espalhadas pelo Plano Piloto mantêm pratos como o arroz com pequi e a galinhada no cardápio fixo, além de preparações sazonais. Para quem quer a experiência completa do arraial, os eventos organizados pelas administrações regionais e por associações de bairro a partir de junho são o caminho mais direto — e mais animado.

Falta pouco para a festa começar. E ela começa, como toda boa festa do Centro-Oeste, pela mesa.


Alô Centro Oeste