Maio no cerrado: um diário da natureza no mês mais bonito do ano

Primeira semana

Maio começa com o céu ainda indeciso. As últimas chuvas de abril deixaram o cerrado encharcado e verde — um verde quase agressivo, que não parece real sob o sol que começa a aparecer com mais frequência. Nas primeiras manhãs do mês, ainda há neblina baixa nos vales e nas veredas. A umidade que ficou presa entre as árvores durante a noite se dissolve devagar, e por um momento — aquele momento entre as seis e as sete da manhã, antes que o sol suba o suficiente para queimar — o cerrado parece um lugar saído de um sonho.

Os ipês começam a dar sinais. Ainda não abriram completamente, mas as ponteiras dos galhos mostram os primeiros botões amarelos e roxos. O ipê é uma das poucas árvores do cerrado que floresce antes de ter folhas — uma estratégia de polinização que parece loucura mas que funciona há milênios. Sem a concorrência das folhagens, as flores são vistas de longe pelos insetos e pelas aves. A árvore aposta tudo na visibilidade.

Nas veredas, os buritis ainda estão com suas folhas máximas, as frondes arqueadas sobre o espelho d'água que não secou completamente. Saracuras atravessam o barro às margens, e uma garça-branca-pequena parada na beira de um córrego parece uma escultura de papel. O cerrado, nessa primeira semana de maio, ainda é o cerrado das chuvas — mas já sente que vai mudar.

Segunda semana

A virada acontece rápido. Em dois ou três dias, o céu passa de nublado a azul profundo e fica assim — sem nuvem, sem negociação. O ar seca. De manhã, a temperatura cai para os quinze graus e parece menos. Quem saiu sem casaco se arrepende.

Os ipês abriram. A SQS 308, com seus ipês-amarelos plantados por Burle Marx nos anos 1960, está coberta de flores que caem sobre a calçada e formam um tapete que nenhum paisagista conseguiria planejar. No Parque da Cidade, as árvores mais antigas têm coroas inteiras em amarelo e roxo, e o contraste com o azul do céu cria aquela paleta de cores que todo fotógrafo de Brasília conhece e persegue.

Os pássaros mudaram de comportamento. O sabiá-do-campo, que passou o verão cantando do alto das árvores, agora canta mais cedo — antes mesmo de o sol aparecer, quando o céu ainda está na faixa do cinza azulado que antecede o amanhecer. O joão-de-barro, que começou sua construção no final das chuvas, já tem o ninho quase pronto. Ele trabalha com uma seriedade que envergonha: vai e volta, vai e volta, carregando barro úmido no bico e moldando as paredes com uma precisão que não se aprende — se nasce sabendo.

Nas chapadas, onde o cerrado aberto domina, as gramíneas começam a dourar. A paisagem que em março era verde uniforme vira agora uma mistura de dourado, ocre e marrom que a luz do fim da tarde transforma em ouro. É a estação seca se anunciando com uma beleza que quase faz esquecer o que ela vai cobrar nos próximos meses.

Terceira semana

A meio de maio, o cerrado entrou de vez no seu ritmo de estação seca. O solo das trilhas está seco e solto, levantando uma poeira fina que fica suspensa na luz da tarde. O ar tem aquele cheiro específico que só existe aqui — terra seca, resina de pequizeiro, algo levemente mineral que não tem nome mas que todo brasiliense reconhece imediatamente.

O lobo-guará aparece com mais frequência nas bordas urbanas. Com as gramíneas mais baixas, ele fica mais visível — e mais vulnerável, porque o alimento está mais disperso. Ele come lobeira, o fruto do lobeiro que começa a amadurecer justamente agora, e percorre territórios vastos em busca deles. Nas câmeras de monitoramento instaladas pelo Ibram nas áreas de proteção ambiental, ele aparece nas madrugadas com aquela silhueta inconfundível de pernas longas e pelo avermelhado.

As araras-canindé, que voavam em grandes bandos durante o verão, agora se movem em casais. A época de reprodução começou. Elas escolhem os ocos das árvores mais antigas — geralmente aroeiras ou jatobás de grande porte — e passam semanas inspecionando as possibilidades antes de decidirem onde vão nidificar. O processo é demorado, criterioso, e envolve muito barulho e discussão entre os dois parceiros, o que os torna inconfundíveis tanto pela visão quanto pelo som.

Nos córregos que ainda têm água, a vida aquática entrou num ritmo mais lento. Os peixes se concentram nos poços mais fundos, onde a temperatura é mais estável. As lontras — que existem em alguns córregos preservados do DF, embora pouquíssimas pessoas saibam disso — aproveitam a água mais rasa das margens para pescar com uma eficiência que parece desportiva.

Última semana

Os últimos dias de maio chegam com uma qualidade de luz que não existe em nenhum outro mês do ano. O sol, que no verão era quase vertical ao meio-dia, inclinou-se o suficiente para criar sombras mais longas e uma iluminação lateral que revela texturas que o verão escondia. As cascas das árvores, os relevos do solo, as fibras das folhas secas — tudo aparece com uma nitidez que parece o cerrado posando para um retrato.

Os ipês já estão perdendo as flores. O tapete amarelo das calçadas, que durou duas semanas, começa a ser varrido pelo vento que agora sopra com mais consistência do norte. As folhas novas começam a aparecer nos galhos que ficaram nus — um verde tenro, quase translúcido, que contrasta com o dourado das gramíneas ao redor. O ciclo que pareceu interrompido retoma.

À noite, o céu de maio é uma recompensa para quem aguenta o frio das madrugadas. Com o ar seco e sem nuvens, as estrelas aparecem com uma clareza que a cidade iluminada às vezes compromete mas não consegue apagar completamente. Da varanda de uma chácara no entorno do DF, ou de qualquer ponto alto com horizonte livre, a Via Láctea é visível a olho nu — uma faixa esbranquiçada que atravessa o céu de horizonte a horizonte e que lembra, com uma humildade gentil, que o cerrado existe há muito mais tempo do que qualquer cidade que tentamos construir dentro dele.

Maio termina sem cerimônia. A natureza não faz inaugurações nem discursos de encerramento. O último dia é igual ao penúltimo, só que com o sol nascendo alguns minutos mais tarde. O cerrado continua seu trabalho silencioso de secar, florescer, guardar água no fundo da terra e preparar o próximo ciclo.

Junho vai começar mais frio. As veredas vão ficando mais baixas. O fogo vai rondar as bordas. Mas hoje, nesse último dia de maio, com o céu azul e os ipês tardios ainda com alguns cachos de flor, o cerrado está exatamente como deveria estar.

Bonito, vivo e irredutível.


Alô  Centro Oeste