Era de manhã cedo, numa terça-feira comum, quando uma moradora do Lago Sul abriu a porta da garagem e se deparou com um tamanduá-bandeira parado no meio do jardim. O animal olhou para ela com aquela expressão característica de quem não tem pressa para nada, cheirou o ar algumas vezes e seguiu em frente pela calçada, como se a casa, o carro e a pessoa fossem parte da paisagem normal do seu trajeto.
Histórias assim acontecem em Brasília com uma frequência que surpreende quem não conhece a cidade. A capital federal é uma das poucas metrópoles do mundo onde é genuinamente possível, numa manhã de dia útil, avistar um lobo-guará atravessando uma rotatória, uma seriema parada no meio-fio ou um bando de araras-canindé sobrevoando um condomínio residencial. A razão para isso é simples e poderosa: Brasília foi construída dentro do cerrado, e o cerrado nunca saiu completamente.
O lobo-guará: o fantasma das bordas urbanas
De todos os animais que habitam as franjas urbanas de Brasília, o lobo-guará é provavelmente o mais imponente e o mais discreto ao mesmo tempo. Com suas pernas longas e avermelhadas, seu focinho afilado e seu porte elegante, ele parece saído de uma lenda — e de fato aparece em várias histórias da mitologia indígena do cerrado como animal de poder e transformação.
O lobo-guará é onívoro e solitário. Come frutas — especialmente a lobeira, ou fruta-do-lobo, que é seu alimento favorito e que cresce nas bordas do cerrado —, pequenos roedores, tatus, aves e insetos. Não é um predador de grande porte e não representa perigo para humanos adultos. Mas a expansão urbana reduziu e fragmentou seu território de forma drástica, e hoje ele é classificado como vulnerável à extinção no Brasil.
No DF, o lobo-guará é avistado com alguma regularidade nas proximidades do Parque Nacional de Brasília, da APA da Cafuringa, da região de São Sebastião e dos condomínios que fazem divisa com áreas de cerrado. Quem o vê geralmente descreve a experiência com uma mistura de assombro e gratidão — a sensação de que a natureza ainda existe, ali, a poucos metros da vida cotidiana.
O tamanduá-bandeira: lento, quieto e em perigo
O tamanduá-bandeira é um dos animais mais singulares das Américas. Com seu focinho tubular, sua língua de até 60 centímetros, suas garras poderosas e aquele padrão de pelagem em preto, branco e cinza que parece uma pintura abstrata, ele é inconfundível. E ele aparece em Brasília com uma frequência que seria surpreendente se a cidade não tivesse tanto cerrado em suas bordas.
O tamanduá se alimenta exclusivamente de formigas e cupins, podendo consumir até 35 mil insetos por dia. Suas garras, que servem para abrir os ninhos, são poderosas o suficiente para rasgar madeira dura — e por isso o animal apoia os nós dos dedos no chão ao caminhar, numa postura que parece desajeitada mas que preserva o fio das garras. Ele não tem dentes e não morde. Mas quando se sente ameaçado, pode se defender com as garras dianteiras com força surpreendente.
O principal perigo para o tamanduá em áreas urbanas não é o confronto — é o atropelamento. A espécie é uma das mais afetadas pela morte em rodovias no Brasil central, e o DF não é exceção. Nas estradas que cortam ou margeiam áreas de cerrado, como a DF-001 e a BR-060, os registros de atropelamentos são frequentes. ONGs locais trabalham no monitoramento e resgate desses animais, e algumas estradas já têm redutores de velocidade e passagens de fauna instalados nos pontos críticos.
A seriema: a ave que não quer voar
Se o cerrado tivesse uma mascote sonora, seria a seriema. Seu grito — um som alto, longo e levemente melancólico que começa grave e vai subindo — é um dos mais característicos do bioma e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Quem cresce no planalto central aprende a associar esse som ao amanhecer, ao cerrado aberto, a uma certa ideia de espaço.
A seriema é uma ave grande — pode chegar a 90 centímetros de altura — que prefere andar a voar. Habita campos abertos e bordas de cerrado, e tem uma tolerância considerável à presença humana. Por isso, é comum avistá-la em parques, gramados e terrenos baldios de Brasília, caminhando com aquele passo decidido e olhando em volta com o ar de quem está inspecionando propriedade.
Ela é carnívora e caça cobras com habilidade impressionante — ergue a cobra pelo meio do corpo e a bate violentamente contra o chão até imobilizá-la. Essa característica faz da seriema um animal muito respeitado pelos fazendeiros do cerrado, que a consideram uma aliada no controle de cobras peçonhentas.
A coruja-buraqueira: moradora do asfalto
A coruja-buraqueira é talvez o animal selvagem mais adaptado à vida urbana no DF. Pequena, diurna e de olhos amarelos expressivos, ela faz seus ninhos em buracos no chão — daí o nome — e se instalou com notável desenvoltura em canteiros, gramados de aeroportos, campos de futebol e rotatórias de Brasília.
Diferente de outras corujas, que são noturnas e esquivas, a buraqueira pode ser avistada de dia, parada na beira da calçada ou na entrada do seu buraco, observando o movimento com aquela seriedade característica dos estrigídeos. Ela se alimenta de insetos, pequenos roedores e lagartixas, e é um predador eficiente que ajuda a controlar pragas urbanas.
A presença da coruja-buraqueira em áreas urbanas é considerada um bom indicador de qualidade ambiental — ela só se estabelece onde há espaço verde suficiente e onde o uso de pesticidas não é intenso. Ver uma buraqueira no bairro é, nesse sentido, uma boa notícia.
O que fazer quando um animal silvestre aparece
A regra mais importante é também a mais difícil de seguir para quem nunca teve a experiência: não se aproxime, não toque e não alimente. Animais silvestres que parecem dóceis ou mansos podem estar doentes, estressados ou simplesmente tolerando a presença humana por falta de opção — e um animal acuado pode reagir de formas imprevisíveis.
Se o animal parecer ferido, desorientado ou em perigo imediato, o caminho correto é acionar o IBRAM — Instituto Brasília Ambiental — pelo número 162, ou o Corpo de Bombeiros pelo 193. Existem também organizações de resgate de fauna silvestre no DF que atendem chamados e orientam moradores sobre como agir em cada situação.
Fotografar à distância, com respeito e sem flash, é sempre bem-vindo. Essas imagens têm valor para o monitoramento das populações de animais e para a conscientização de outras pessoas sobre a fauna que ainda habita a cidade.
Uma cidade que ainda compartilha espaço
Brasília tem uma oportunidade rara — e uma responsabilidade proporcional. Poucas capitais do mundo ainda podem oferecer aos seus moradores o contato cotidiano com animais silvestres que a cidade oferece. Mas essa convivência não é garantida: ela depende da preservação das áreas verdes, do controle do crescimento urbano sobre habitats críticos, da redução dos atropelamentos nas rodovias e de uma cultura coletiva que enxergue nesses animais vizinhos, não intrusos.
O tamanduá que aparece no jardim de manhã cedo não está perdido. Ele está em casa — numa casa que divide, desde sempre, com a gente.
Alô Centro Oeste
