Em abril de 1960, Juscelino Kubitschek subiu o palanque e declarou, com a grandiloqüência que a ocasião exigia, que a capital do Brasil estava inaugurada. O país inteiro olhou para o cerrado e viu uma promessa tomar forma de concreto, vidro e utopia. Sessenta e cinco anos depois, Brasília ainda é uma promessa — só que agora é uma promessa que já tem história, cicatrizes e uma identidade que nenhum urbanista planejou.
Visitar Brasília hoje é habitar duas cidades ao mesmo tempo. Uma é a cidade do projeto — monumental, simétrica, Patrimônio da Humanidade, com seus eixos e superquadras e palácios que ainda surpreendem quem os vê pela primeira vez. A outra é a cidade real — espraiada, desigual, barulhenta, cheia de vida e contradições, que cresceu muito além do que o Plano Piloto jamais comportaria. Entender Brasília é aprender a enxergar as duas ao mesmo tempo.
O que o projeto prometia
O plano urbanístico de Lúcio Costa, vencedor do concurso de 1957, era mais do que um projeto de cidade — era um manifesto social. As superquadras foram concebidas para eliminar as diferenças de classe no espaço urbano: numa mesma quadra, o ministro e o servidor de nível médio seriam vizinhos, usariam o mesmo parquinho, comprariam no mesmo comércio local. Os pilotis liberariam o térreo para a circulação livre de pedestres. As faixas de parques contínuos — as entrequadras — garantiriam verde e lazer para todos, sem grades e sem exclusividade.
Era uma visão generosa, inspirada no urbanismo moderno europeu e temperada com uma dose de otimismo que só os anos 1950 sabiam fabricar. E em muitos aspectos ela funcionou — pelo menos no Plano Piloto. As superquadras ainda têm uma qualidade de vida urbana que poucos bairros brasileiros igualam. Os parques são públicos e acessíveis. A escala generosa das vias, que tanto confunde os visitantes, cria uma sensação de espaço e respiração que São Paulo e Rio perderam há décadas.
O que o projeto não previu
O que Lúcio Costa e Niemeyer não previram — ou preferiram não ver — foi para onde iria a maior parte das pessoas que construiu e habitou a cidade. Os candangos que ergueram Brasília foram sendo progressivamente empurrados para fora do Plano Piloto, para acampamentos e depois para cidades-satélite que nasceram sem o mesmo cuidado urbanístico da capital planejada.
Ceilândia, criada em 1971 para abrigar os moradores das invasões que cercavam o Plano Piloto, é hoje a cidade com maior população do DF — mais de 500 mil habitantes. Taguatinga, Samambaia, Planaltina, Sobradinho: cada uma dessas cidades tem sua própria história, sua própria cultura, seus próprios problemas e qualidades. Juntas, elas são a Brasília real — a que não aparece nos documentários sobre o modernismo brasileiro mas que abriga a maioria das pessoas que fazem a capital funcionar.
A contradição entre a cidade planejada e a cidade real é o maior não resolvido de Brasília. O Plano Piloto concentra renda, serviços, infraestrutura e atenção política de uma forma que as cidades-satélite nunca tiveram em igual medida. Esse desequilíbrio, que existe desde o início, só aumentou com o crescimento populacional acelerado das últimas décadas.
O tombamento que salvou e o que ele não conseguiu salvar
Em 1987, Brasília foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO — a primeira cidade do século XX a receber essa distinção. O tombamento foi uma vitória importante para a preservação do conjunto arquitetônico e urbanístico do Plano Piloto, e colocou a cidade num patamar de reconhecimento internacional que reforçou o orgulho dos brasilienses.
Mas o tombamento também criou tensões. A preservação da escala e do gabarito original das construções — nenhum prédio pode ultrapassar a altura das copas das árvores nas superquadras — entrou em conflito com a pressão imobiliária crescente. O mercado encontrou saídas criativas para driblar as restrições, e a especulação sobre os terrenos do Plano Piloto tornou o acesso à moradia na área tombada um privilégio de renda cada vez mais exclusivo.
Ao mesmo tempo, o tombamento não chegou — e não poderia chegar — às cidades-satélite e às áreas de expansão urbana. Lá, o crescimento aconteceu com muito menos controle, e o resultado é uma paisagem urbana fragmentada onde o belo e o precário coexistem sem nenhum plano que os reconcilie.
Os filhos de Brasília
A geração que nasceu em Brasília a partir dos anos 1970 e 1980 tem uma relação com a cidade que difere profundamente da de seus pais. Para os que vieram de fora — os funcionários públicos transferidos, os migrantes nordestinos, os comerciantes de todo o Brasil — Brasília era sempre um pouco provisória, um lugar onde se estava mas de onde se poderia partir. Para os filhos dessa geração, não há essa provisoriedade. Brasília é simplesmente casa.
Essa geração cresceu entre as superquadras e as cidades-satélite, circulando pelos dois mundos com uma naturalidade que seus pais nem sempre tinham. Ela construiu uma cultura urbana própria — o rock dos anos 1980, o grafite, a gastronomia que resgata o cerrado, os coletivos culturais das cidades-satélite — e desenvolveu um senso de identidade brasiliense que não precisa mais se justificar para o resto do Brasil.
O que Brasília ainda promete
Sessenta e seis anos depois da inauguração, Brasília ainda carrega algumas promessas por cumprir. A mobilidade urbana entre o Plano Piloto e as cidades-satélite continua sendo um dos maiores gargalos da qualidade de vida no DF — décadas de dependência do carro particular criaram uma cidade que pune com horas de trânsito quem não tem acesso a transporte individual. O metrô, inaugurado em 2001, ainda não chegou a todas as cidades-satélite que mais precisam dele.
A desigualdade entre o centro planejado e a periferia real segue sendo a questão mais urgente e menos resolvida. Investir nas cidades-satélite com o mesmo cuidado urbanístico, cultural e de infraestrutura que historicamente foi dado ao Plano Piloto não é apenas uma questão de justiça social — é uma condição para que Brasília se torne, de fato, a cidade que seu projeto original prometia ser.
E ainda há o cerrado. A cidade que foi construída no meio do bioma mais ameaçado do Brasil tem uma responsabilidade especial com a natureza que a cerca. Proteger as áreas verdes, restaurar as veredas degradadas, planejar o crescimento urbano de forma que não destrua os mananciais e as reservas ecológicas — essas são tarefas que pertencem tanto ao governo quanto a cada morador.
Brasília tem 66 anos, Patrimônio da Humanidade, uma história que mistura utopia e contradição, e uma geração inteira de filhos que a amam com a lealdade de quem não escolheu onde nascer mas escolhe, todo dia, ficar. Essa cidade ainda está sendo inventada. E isso, no fundo, é exatamente o que torna ela tão interessante.
Alô Centro Oeste
