Água no Centro-Oeste: o que está por trás da crise hídrica que retorna todo ano com a seca

Cada ano, com uma pontualidade que já não surpreende mais ninguém, a mesma notícia volta a circular pelo Distrito Federal e pelas cidades do entorno: os reservatórios estão baixando, o nível do Descoberto caiu, o sistema Santa Maria está em alerta. A estação seca chegou, e com ela a sensação de que a capital do país, uma das mais planejadas do mundo, ainda não resolveu uma das questões mais básicas da vida urbana: garantir água para quem mora aqui.

Mas a crise hídrica do Centro-Oeste não é um problema simples, e entendê-la exige olhar para além das represas e das contas de água. Ela tem raízes no solo, na vegetação, no clima e nas escolhas que a sociedade fez — e continua fazendo — sobre como ocupar esse território.

Um clima que não perdoa a imprevidência

O Centro-Oeste brasileiro vive sob um regime climático de contrastes extremos. Entre outubro e março, as chuvas são abundantes — Brasília recebe em média 1.500 milímetros de chuva por ano, o que não é pouco. O problema é que quase toda essa chuva cai em seis meses, e os outros seis são de seca quase absoluta.

Entre junho e setembro, é comum que semanas inteiras passem sem uma gota d’água cair. A umidade relativa do ar despenca para níveis que a Organização Mundial da Saúde compara aos do deserto do Saara — abaixo de 12% em dias extremos. Nesse cenário, a pressão sobre os reservatórios é enorme: eles precisam acumular água suficiente durante o período chuvoso para abastecer a população durante a estiagem. Qualquer falha nesse equilíbrio — uma chuva abaixo da média, um aumento no consumo, uma perda na distribuição — e o problema aparece.

O cerrado como fábrica de água

Há uma ironia poderosa no fato de que a região que sedia a capital federal também abriga aquele que os cientistas chamam de “berço das águas” do Brasil. O Cerrado, bioma que ocupa cerca de 24% do território nacional, é a nascente de oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras — incluindo o São Francisco, o Tocantins, o Paraná e o Araguaia.

Esse papel não é acidental. A vegetação do cerrado — com suas raízes que podem chegar a 15 ou 20 metros de profundidade — funciona como uma esponja gigante. Quando chove, essas raízes conduzem a água para os aquíferos subterrâneos, que depois a liberam lentamente para os rios durante a estação seca. É um mecanismo de regulação hídrica que levou milênios para se desenvolver e que garante que os rios do centro do país não sequem completamente entre junho e setembro.

O problema é que esse mecanismo depende da vegetação nativa estar de pé. E ela está desaparecendo.

O preço do desmatamento

O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil. Estima-se que mais da metade de sua cobertura original já foi destruída — uma devastação que avançou principalmente nas últimas décadas, impulsionada pela expansão da agricultura e da pecuária nas regiões de chapada. No Distrito Federal, a situação é igualmente preocupante: a urbanização acelerada das últimas décadas eliminou grande parte da vegetação nativa nas bacias que abastecem os principais reservatórios.

Quando o cerrado é substituído por pasto, soja ou concreto, a lógica hídrica muda completamente. As raízes rasas das gramíneas e culturas anuais não conseguem fazer o mesmo trabalho de infiltração que as raízes profundas do cerrado nativo. A água da chuva, em vez de ser absorvida pelo solo, escorre pela superfície — causando erosão, assoreando os rios e chegando rapidamente aos reservatórios com uma carga de sedimentos que reduz sua capacidade de armazenamento.

O assoreamento do Lago Paranoá e dos reservatórios do Descoberto e Santa Maria é um problema documentado há décadas. Mas a reconexão entre esse assoreamento e o desmatamento das bacias contribuintes ainda não entrou de forma efetiva na agenda pública.

As veredas: o elo mais frágil

Dentro do cerrado, há um ecossistema ainda mais sensível e mais importante para a regulação hídrica: as veredas. São aquelas faixas de vegetação úmida que aparecem nos fundos de vale, dominadas pelas altíssimas palmeiras buriti, onde a água subterrânea aflora naturalmente e alimenta nascentes e córregos durante o ano inteiro.

As veredas são protegidas por lei como Área de Preservação Permanente, mas na prática são frequentemente invadidas por pastagens, drenadas para ampliar áreas agricultáveis ou simplesmente ignoradas nos processos de licenciamento urbano. Quando uma vereda desaparece, desaparece junto a nascente que ela protegia — e o córrego que ela alimentava pode secar definitivamente.

No Distrito Federal e no entorno, a perda de veredas ao longo das décadas de urbanização e expansão rural é um dos fatores menos visíveis, mas mais determinantes, da fragilidade hídrica da região.

O que Brasília tem feito — e o que falta fazer

A resposta institucional à crise hídrica no DF tem oscilado entre o reativo e o insuficiente. O episódio mais grave foi entre 2016 e 2018, quando o Sistema Descoberto — que abastece cerca de 60% da população do DF — atingiu níveis críticos de armazenamento, chegando próximo ao colapso. A crise gerou racionamento, mobilizou investimentos emergenciais e, por alguns meses, colocou o tema no centro do debate público.

Desde então, foram feitos investimentos na ampliação da capacidade de captação, na interligação entre sistemas e em programas de redução de perdas na rede de distribuição — onde, historicamente, se desperdiça uma parcela significativa da água tratada antes mesmo de chegar às torneiras. A Caesb, companhia responsável pelo saneamento do DF, tem apresentado índices de perdas menores do que a média nacional, o que é positivo, mas ainda há espaço considerável para melhoria.

O que ainda falta, na avaliação de especialistas em recursos hídricos, é uma política consistente de proteção e recuperação das bacias contribuintes. Plantar árvores nativas nas margens dos córregos, restaurar veredas degradadas, controlar o crescimento urbano sobre áreas de recarga de aquífero — essas ações têm efeito no longo prazo, são menos visíveis eleitoralmente do que a construção de uma nova represa, e por isso tendem a ficar em segundo plano.

Uma questão de todos

A crise hídrica do Centro-Oeste não vai ser resolvida por uma única obra ou por uma única gestão. Ela é o resultado acumulado de décadas de decisões sobre como usar o território, e sua solução vai exigir décadas de decisões diferentes.

Mas enquanto essa virada de longo prazo não acontece, há coisas que cada morador do DF pode fazer: reduzir o consumo doméstico, especialmente nos meses de setembro e outubro, quando os reservatórios estão no menor nível do ano; apoiar iniciativas de recuperação de matas ciliares e veredas; e, talvez o mais importante, cobrar dos gestores públicos que a política de recursos hídricos deixe de ser assunto de crise e se torne assunto de planejamento permanente.

A água que sai da torneira em Brasília começa sua jornada nas raízes de uma árvore de cerrado a quilômetros de distância. Quanto mais dessas árvores existirem, mais segura essa torneira vai estar. É simples assim — e é complexo assim.


Alô Centro Oeste