Das procissões centenárias do interior de Goiás às festas rurais do Mato Grosso, a Páscoa no Centro-Oeste é muito mais do que um feriado — é uma celebração viva de identidade e pertencimento.
Uma região de fé profunda
O Centro-Oeste brasileiro tem uma relação histórica e afetiva muito
forte com o catolicismo popular. Desde os tempos da colonização, as festas
religiosas foram o principal espaço de socialização das comunidades do interior
— e essa tradição permanece viva, especialmente nas cidades históricas de Goiás
e nas comunidades rurais espalhadas pelo Mato Grosso e pelo Mato Grosso do Sul.
A Semana Santa, que culmina na Páscoa, é o momento mais solene desse
calendário. Procissões, encenações da Paixão de Cristo, novenas, rezas
comunitárias e uma culinária específica marcam os dias entre o Domingo de Ramos
e o Domingo de Ressurreição. Para quem cresce nessas comunidades, a Semana
Santa é uma experiência sensorial e espiritual que fica marcada para sempre.
Goiás Velho: onde o tempo para na Semana Santa
A cidade de Goiás — antiga capital do estado, também conhecida como
Goiás Velho — é o cenário mais emblemático das celebrações de Semana Santa no
Centro-Oeste. A Procissão do Fogaréu, realizada na madrugada da Quarta-feira
Santa, é considerada uma das mais belas e emocionantes manifestações religiosas
do Brasil.
A procissão acontece com as luzes da cidade completamente apagadas.
Centenas de pessoas percorrem as ruas de paralelepípedo colonial carregando
tochas acesas, acompanhando figuras encapuzadas que representam os soldados
romanos em busca de Jesus. O contraste entre a escuridão da noite, o brilho das
chamas e a arquitetura barroca iluminada cria uma atmosfera única — medieval,
mística, inesquecível.
A cidade de Goiás recebe visitantes de todo o Brasil durante a Semana
Santa, e a programação vai além do Fogaréu: há encenações da Via-Sacra nas
ladeiras da cidade, missas em igrejas tombadas pelo patrimônio histórico e uma
rica oferta gastronômica com pratos típicos da culinária goiana de época.
A culinária da Quaresma no Centro-Oeste
A Semana Santa no interior do Centro-Oeste tem sabor próprio. A tradição
de não comer carne vermelha durante a Sexta-feira Santa — e, para os mais
devotos, durante toda a Quaresma — deu origem a uma culinária específica que
atravessa gerações.
O peixe é o protagonista da mesa pascal na região. No Mato Grosso, o
pacu assado na brasa ou na telha é presença quase obrigatória. Em Goiás, o
peixe cozido com legumes e temperos da roça aparece nas mesas do interior com
uma simplicidade que não esconde a riqueza do sabor. Pratos à base de ovos,
feijão, inhame e mandioca também ganham destaque nesse período.
Nas feiras e mercados das cidades goianas e mato-grossenses, a Semana
Santa movimenta o comércio de peixes frescos e defumados. É uma das raras
épocas do ano em que a culinária regional se sobrepõe às influências externas —
e em que comer é, também, um ato de memória afetiva.
Fé que mistura e cria
Nas comunidades quilombolas, indígenas e rurais do Centro-Oeste, a
Semana Santa frequentemente incorpora elementos de outras tradições culturais,
criando celebrações únicas que mesclam o catolicismo com práticas e simbologias
próprias de cada povo. Essa mistura não é contradição — é o Brasil sendo o
Brasil: plural, inventivo, profundamente humano.
Para o visitante que chega ao Centro-Oeste durante a Páscoa, a
recomendação é simples: vá além dos atrativos turísticos mais conhecidos e
procure as celebrações locais. Uma missa numa igrejinha de cidade pequena, uma
procissão à luz de velas numa vila rural, uma mesa farta partilhada com
desconhecidos — essas são as experiências que mostram o Centro-Oeste como ele
realmente é.
