De Cora Coralina a vozes contemporâneas que reescrevem o Brasil pelo olhar do sertão e do Cerrado — a literatura do Centro-Oeste é rica, plural e ainda pouco conhecida pelo grande público.
Uma literatura que nasce da terra
Existe uma ideia equivocada, que circula sobretudo nos grandes centros
culturais do país, de que a produção literária brasileira se concentra no eixo
Rio-São Paulo. A literatura do Centro-Oeste desfaz esse equívoco com força e
elegância. Da poesia de raiz goiana de Cora Coralina à prosa urbana de
escritores brasilienses contemporâneos, passando pelas narrativas do sertão
mato-grossense, a região tem uma tradição literária própria — enraizada no
território, na paisagem e na experiência de viver no coração do Brasil.
Conhecer esses escritores é, também, uma forma de conhecer melhor o
Centro-Oeste. A literatura tem o poder de revelar camadas de um lugar que a
reportagem, o documentário e o turismo raramente alcançam. Ela mostra o
interior das casas, o pensamento das pessoas, o peso do silêncio no cerrado às
três da tarde.
Cora Coralina: a voz que veio do chão de Goiás
Nenhuma conversa sobre literatura do Centro-Oeste pode começar de outro
lugar que não seja Cora Coralina. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas — esse
era seu nome de batismo — nasceu em 1889 na cidade de Goiás e viveu quase cem
anos, publicando seu primeiro livro aos 76 anos de idade. Doceira, lavadeira em
certos momentos da vida, mulher que enfrentou preconceitos de toda sorte, Cora
se tornou uma das vozes mais amadas da poesia brasileira.
Seus poemas falam da terra goiana, das mulheres anônimas, do rio
Vermelho que passa aos fundos da casa onde viveu — e que hoje é museu. Há em
sua poesia uma grandeza que vem da simplicidade: ela escreveu sobre o que
conhecia com uma profundidade que poucos alcançam. Poemas como Todas as Vidas e
O Cântico da Terra são leituras obrigatórias para quem quer entender o
Centro-Oeste por dentro.
A casa de Cora Coralina, em Goiás Velho, às margens do rio Vermelho, é
um dos destinos culturais mais emocionantes do interior do Brasil. Visitar
aquele espaço é entrar num poema.
Vozes contemporâneas que reescrevem a região
Depois de Cora Coralina, a literatura goiana continuou se renovando.
Bernardo Élis, contemporâneo dela, construiu uma obra em prosa de grande força
— seus contos e romances retratam o interior de Goiás com uma precisão quase
documental e uma crueza que não poupa o leitor. A obra de Élis é fundamental
para entender as contradições sociais e humanas do sertão goiano do século XX.
Entre os escritores contemporâneos, Brasília tem produzido uma geração
interessante de vozes que processam a experiência de viver numa cidade
planejada, dividida, plural. Autores como Luciana Hidalgo, José Rezende Jr. e
escritores que emergiram dos saraus e coletivos literários das regiões
administrativas trazem para a literatura brasiliense uma dimensão periférica e
urgente que enriquece o panorama cultural da cidade.
No Mato Grosso, a escritora Enivalda Nunes Freitas e Duarte tem se
destacado com uma produção que explora a identidade regional e as tensões entre
tradição e modernidade no Centro-Oeste. E em todo o território da região,
pequenas editoras independentes têm publicado autores locais que dificilmente
chegariam ao mercado editorial nacional — tornando-se espaços essenciais de
preservação e difusão da literatura regional.
Por onde começar
Para quem quer mergulhar na literatura do Centro-Oeste, algumas
sugestões de leitura formam um mapa afetivo e intelectual da região. Comece por
Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, de Cora Coralina — a edição da
Global Editora está disponível nas principais livrarias e é uma das mais
vendidas da poesia brasileira. Depois, avance para os contos de Bernardo Élis,
especialmente o volume Caminhos e Descaminhos.
Para uma perspectiva mais contemporânea e urbana, procure as antologias
de literatura brasiliense produzidas por coletivos como o Sarau do Bosque e
iniciativas culturais das regiões administrativas. Muitos desses textos
circulam em formato digital e podem ser encontrados com uma pesquisa simples.
A literatura do Centro-Oeste está viva, está crescendo e está esperando
ser lida. E cada página é uma janela para um Brasil que o eixo Rio-São Paulo
ainda não aprendeu a ver.
Alô Centro Oeste
