A virada das águas para a seca transforma a paisagem do Centro-Oeste de forma dramática. Saiba o que muda na natureza — e o que esse ciclo significa para quem vive na região.
Entre duas estações
Abril é um mês de transição no Cerrado. As chuvas que marcaram os meses
anteriores começam a ceder espaço a um céu cada vez mais azul e a um ar
progressivamente mais seco. Para quem vive no Centro-Oeste, essa mudança não
passa despercebida: a cor da paisagem muda, o cheiro do mato muda, e até o
comportamento dos animais ao redor muda.
Essa passagem entre a estação úmida e a seca é, na verdade, um dos
momentos mais ricos do bioma. Ao contrário do que pode parecer, o Cerrado não
'apaga' — ele se transforma. E entender esse ciclo é entender um pouco mais da
alma desse território que sustenta boa parte do Brasil.
O que floresce em abril
Embora o imaginário popular associe flores à chuva, várias espécies do
Cerrado florescem justamente na transição ou no início da seca. O ipê-amarelo
(Handroanthus albus) é o símbolo mais visível dessa época: perde as folhas e
explode em flores douradas, colorindo estradas e praças de Brasília e das
cidades do interior.
O ipê-roxo também marca presença em abril, tingindo o horizonte de
lilás. Já o murici (Byrsonima crassifolia) apresenta seus cachos amarelos ao
longo das chapadas e veredas. Para os amantes da natureza, o mês é um convite
às trilhas — a visibilidade no cerrado aberto melhora com a queda das folhas,
revelando paisagens que ficam escondidas durante o período chuvoso.
Nas matas de galeria, que acompanham os cursos d'água, o verde se mantém
mais intenso. Ali, bromélias, orquídeas e begônias silvestres continuam
florescendo, abrigando insetos e aves que dependem desses corredores úmidos
para sobreviver à estação mais árida.
O que se despede
Com o fim das chuvas, os campos úmidos — conhecidos como veredas —
começam a secar nas bordas. As áreas alagadas, que em janeiro e fevereiro
abrigavam garças, capivaras e uma infinidade de anfíbios, vão gradualmente
perdendo volume de água. Algumas espécies de rãs entram em estivação,
enterrando-se na lama para esperar o retorno das chuvas.
Os rios e córregos também sentem a diferença. O nível das águas cai, e
corredeiras que estavam submersas voltam à tona. Quem mora perto de algum rio
no Cerrado sabe: abril marca o início da 'época de pedra', quando a paisagem
dos leitos revela sua forma mais crua e bela.
As cigarras, que cantavam acompanhando as chuvas, começam a diminuir. O
Cerrado vai ficando mais silencioso — mas é um silêncio que guarda vida. A seca
é parte do ciclo, não sua negação.
O que os moradores percebem
Para quem cresceu no Centro-Oeste, abril tem cheiro e cor próprios. O
cheiro é de terra seca com resquício de chuva, aquele aroma que antecede as
queimadas naturais que, historicamente, fazem parte do funcionamento do bioma.
A cor é a do capim-dourado começando a amadurecer no Norte de Goiás —
matéria-prima de um artesanato que é patrimônio cultural do Brasil.
Agricultores familiares usam a virada de abril como referência para o
calendário do plantio e da colheita. Pescadores do Araguaia e do São Francisco
já sabem que é hora de mudar os pontos de pesca. E os moradores das cidades,
mesmo sem perceber, sentem o ar mais seco na garganta e a poeira voltando às
ruas.
Abril no Cerrado é, acima de tudo, um lembrete de que a natureza tem
ritmo próprio — e que aprender a ler esse ritmo é uma forma de pertencer, de
verdade, a este imenso e generoso bioma.
Alô Centro Oeste
