Brasília 65 Anos: O Que a Capital Realizou e O Que Ainda Promete

Em 21 de abril, a capital federal completa 65 anos. Entre conquistas admiráveis e desafios persistentes, Brasília segue sendo uma cidade em construção — no sentido mais humano da palavra.

Uma cidade que nasceu de uma aposta

Em 21 de abril de 1960, Juscelino Kubitschek inaugurou uma cidade que boa parte do mundo julgava impossível. Construída em menos de quatro anos no coração do Cerrado, Brasília foi um ato de ousadia política e arquitetônica que mudou definitivamente o mapa do Brasil — e o imaginário de uma nação que acreditava, naquele momento, que o futuro era possível.

Sessenta e cinco anos depois, a capital federal é uma metrópole com mais de três milhões de habitantes, sede dos três poderes da República, patrimônio cultural da humanidade reconhecido pela UNESCO desde 1987 e palco de alguns dos momentos mais marcantes da história recente do país. Mas é também uma cidade que ainda busca conciliar o projeto utópico que a originou com a realidade complexa de quem vive nela todos os dias.

O que se realizou

A arquitetura de Oscar Niemeyer e o urbanismo de Lúcio Costa resistiram ao tempo e ao uso intenso. O Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, a Catedral Metropolitana e o Congresso Nacional continuam impressionando visitantes de todo o mundo. A cidade é um museu a céu aberto — e tem a consciência disso.

Brasília também se consolidou como um polo cultural surpreendente. A cena musical da cidade, que produziu nomes como Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso, mantém vitalidade com novos artistas e festivais. Os museus, galerias e centros culturais — muitos deles em edifícios projetados por grandes arquitetos — oferecem uma programação que rivaliza com a das principais capitais brasileiras.

No campo da educação, a Universidade de Brasília (UnB) tornou-se uma das mais importantes do país, formando gerações de profissionais e contribuindo para o desenvolvimento científico nacional. O Distrito Federal tem um dos melhores índices de educação pública do Brasil — um dado que frequentemente surpreende quem vem de fora.

O que ainda promete — e o que ainda falta

Apesar das conquistas, Brasília carrega contradições profundas. A cidade planejada para a igualdade reproduziu, ao longo das décadas, uma brutal segregação socioespacial. O Plano Piloto, com sua arquitetura tombada e seus altos preços de imóveis, ficou acessível para poucos. A maioria da população foi empurrada para as regiões administrativas e cidades do entorno, que cresceram sem o mesmo investimento em infraestrutura, transporte e equipamentos públicos.

O trânsito é outro nó. Projetada para o automóvel, Brasília enfrenta hoje congestionamentos diários que castigam os moradores das satélites. O metrô, com apenas duas linhas, cobre uma fração pequena das necessidades de mobilidade da cidade. Ciclovias existem, mas ainda de forma fragmentada.

Há, no entanto, sinais de transformação. A cidade tem investido em revitalização de espaços públicos, e a nova geração de brasilienses demonstra um apego crescente à identidade local — algo que não existia nas primeiras décadas. Brasília está, aos poucos, desenvolvendo alma de cidade vivida, não apenas de capital de papel.

Aos 65 anos, Brasília é uma cidade que ainda se descobre. E talvez seja exatamente isso que a torna tão fascinante: ela foi construída como uma promessa, e segue sendo — generosamente — uma cidade em aberto.


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