Planaltina, Paranoá, São Sebastião, Ceilândia, Samambaia — cada Região Administrativa do Distrito Federal tem história, identidade e vida própria. É hora de conhecê-las.
O DF que não aparece nos cartões-postais
Quando alguém fala em Brasília, a imagem que vem à mente quase sempre é
a mesma: o Congresso Nacional, a Esplanada dos Ministérios, o Eixão, os pilotis
do Plano Piloto. Essa Brasília existe, é real e é deslumbrante. Mas ela
representa apenas uma fração do Distrito Federal — tanto em território quanto
em população.
O DF é dividido em 35 Regiões Administrativas, e a maior parte dos seus
mais de três milhões de habitantes vive fora do Plano Piloto. São cidades com
história própria, culturas específicas, gastronomia, arte e personagens que
raramente aparecem nas reportagens sobre a capital. Este artigo começa uma
série de mergulhos nessas regiões — e o ponto de partida são três delas que têm
muito a contar.
Planaltina: a cidade mais antiga do DF
Antes de Brasília existir, Planaltina já era uma cidade. Fundada em
1859, ela é o município mais antigo do território que viria a se tornar o
Distrito Federal — e guarda memórias que antecedem em um século a construção da
capital.
O centro histórico de Planaltina preserva casarões do século XIX, uma
igreja matriz que data de 1870 e a Pedra Fundamental, marco simbólico cravado
em 1922 para indicar onde seria erguida a futura capital federal — projeto que
só se concretizou quase quatro décadas depois.
Planaltina tem também uma das maiores festas religiosas do Centro-Oeste:
a Festa do Divino Pai Eterno, que atrai centenas de milhares de fiéis todos os
anos. A cidade é vizinha de Águas Emendadas, uma das reservas ecológicas mais
importantes do DF, onde nascem rios que correm em direção à Amazônia e ao Prata
— em direções opostas, um fenômeno geográfico raro no mundo.
Paranoá: à beira do lago, uma história de resistência
O Paranoá tem uma origem ligada diretamente à construção de Brasília. Os
trabalhadores que ergueram a barragem do Lago Paranoá formaram um acampamento
às margens do canteiro de obras — e se recusaram a sair quando a capital foi
inaugurada. Essa resistência pacífica e persistente garantiu a permanência da
comunidade e originou a cidade que existe hoje.
Às margens do lago que lhe dá nome, o Paranoá desenvolveu uma identidade
forte ligada à pesca artesanal, à música e à cultura popular. A orla da cidade,
revitalizada nos últimos anos, tornou-se um espaço de lazer acessível e animado
— alternativa mais popular e democrática às orlas privadas do Lago Sul e do
Lago Norte.
O Paranoá também é conhecido por sua cena cultural vibrante. O hip-hop e
o rap encontraram ali terreno fértil desde os anos 1990, e a cidade produziu
artistas que influenciaram gerações de jovens brasilienses. Passear pelo
Paranoá é entender que Brasília tem muito mais camadas do que a arquitetura
modernista sugere.
São Sebastião: entre o crescimento e a identidade
São Sebastião é uma das regiões administrativas que mais cresceu nas
últimas décadas. Localizada a cerca de 25 quilômetros do centro de Brasília, a
cidade passou de um conjunto de chácaras e assentamentos rurais a um núcleo
urbano denso e diverso — com uma população estimada em mais de 100 mil
habitantes.
A região abriga uma das maiores concentrações de imigrantes nordestinos
do DF, o que se reflete na culinária, nas festas juninas e na forte devoção
religiosa que marca o calendário local. São Sebastião também tem uma cena
artística em expansão, com grafiteiros, músicos e artesãos que constroem uma
identidade cultural própria, distante dos holofotes do Plano Piloto.
Conhecer São Sebastião, o Paranoá e Planaltina é apenas o começo. Cada
uma das 35 Regiões Administrativas do DF guarda surpresas para quem se dispõe a
ir além dos roteiros convencionais. Nas próximas edições desta série, o Alô
Centro-Oeste continua essa viagem pelo DF que pulsa longe dos cartões-postais.
