Por trás dos números recordes do agro, há milhares de famílias que cultivam hortaliças, frutas e produtos artesanais nas feiras e mercados do Centro-Oeste. Conheça quem realmente coloca comida na mesa da região.
Dois mundos, um território
O Centro-Oeste brasileiro é mundialmente conhecido como o celeiro do
agronegócio. Soja, milho, algodão, carne bovina — a região concentra uma
produção agrícola de escala gigantesca que abastece mercados na Europa, na Ásia
e em todo o mundo. Esse é o rosto que o Centro-Oeste costuma mostrar para fora.
Mas existe outro rosto, menos fotografado e menos celebrado, que é
igualmente essencial: o da agricultura familiar. São pequenos e médios
produtores, muitas vezes invisíveis nas estatísticas do agronegócio, que
cultivam a diversidade alimentar que chega diariamente às mesas dos moradores
do Distrito Federal, de Goiás, do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. São eles
que garantem o tomate, a alface, a mandioca, o queijo, a galinha caipira e as
frutas da estação.
Números que contam uma história diferente
No Brasil, a agricultura familiar responde por cerca de 70% dos
alimentos que chegam à mesa dos brasileiros — mesmo ocupando uma área muito
menor do que a agricultura empresarial. No Centro-Oeste, esse contraste é ainda
mais marcante: enquanto as grandes propriedades dominam a paisagem e os índices
de exportação, é a pequena produção que abastece os mercados locais e as feiras
urbanas.
No Distrito Federal, a agricultura familiar tem papel estratégico no
abastecimento da população. O cinturão verde ao redor de Brasília — formado por
chácaras e sítios nos municípios goianos vizinhos, como Planaltina, Brazlândia,
Sobradinho e Cristalina — produz grande parte dos alimentos frescos consumidos
diariamente na capital. Sem esses produtores, o custo e a distância dos
alimentos seriam significativamente maiores.
Feiras: o espaço onde o campo encontra a cidade
As feiras livres e orgânicas do Distrito Federal e das cidades goianas
são o principal ponto de contato entre os agricultores familiares e os
consumidores urbanos. Nas feiras, é possível comprar direto de quem plantou — e
essa relação direta tem valor que vai além do preço.
Em Brasília, feiras como a do Setor de Clubes Sul, a da Torre de TV, a
de Brazlândia e as feiras orgânicas espalhadas por diversas regiões
administrativas reúnem produtores que oferecem desde hortaliças convencionais
até produtos agroecológicos certificados, queijos artesanais, farinhas de
mandioca, doces e conservas caseiras.
Para os produtores, a feira não é apenas canal de venda — é espaço de
sociabilidade, reconhecimento e dignidade. Muitos deles são filhos e netos de
agricultores que vieram do Nordeste ou de Minas Gerais para trabalhar na
construção de Brasília e ficaram, encontrando na terra ao redor da capital uma
nova forma de vida.
Desafios e caminhos
A agricultura familiar no Centro-Oeste enfrenta obstáculos reais: acesso
limitado a crédito, dificuldades de escoamento da produção, concorrência com
produtos industrializados mais baratos e, em muitos casos, falta de apoio
técnico e assistência rural adequada. A pressão pelo uso da terra, num
território dominado pelo agronegócio, também é uma ameaça constante.
Ainda assim, há movimentos animadores. Programas de compras
institucionais — como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que
exige que ao menos 30% dos alimentos adquiridos pelas escolas públicas venham
da agricultura familiar — garantem renda estável a milhares de produtores.
Cooperativas e associações rurais têm fortalecido a organização coletiva e a
capacidade de negociação desses agricultores.
Apoiar a agricultura familiar é uma escolha que qualquer consumidor pode
fazer. Comprar na feira, preferir produtos locais e sazonais, valorizar o
alimento com história — são gestos simples que têm impacto real na vida das
famílias que alimentam o Centro-Oeste todos os dias.
Alô Centro Oeste
