A Cozinha do Cerrado na Mesa dos Restaurantes de Brasília

Baru, pequi, jatobá, gueroba, buriti. Ingredientes que nasceram no Cerrado estão chegando com força aos restaurantes da capital — e redesenhando o que significa comer com identidade no Centro-Oeste.

Da roça para o prato fino

Durante décadas, a gastronomia de Brasília foi marcada pela diversidade de origens dos seus habitantes — um reflexo natural de uma cidade construída por migrantes de todos os cantos do Brasil. Mineiros, nordestinos, goianos, sulistas: cada grupo trouxe sua culinária, e a capital foi se tornando um caldeirão de sabores. O que faltava, até pouco tempo atrás, era um olhar mais atento para o que já existia bem debaixo do nariz — ou melhor, do Cerrado ao redor.

Nos últimos anos, um movimento crescente de chefs, cozinheiros e empreendedores gastronômicos passou a valorizar os ingredientes nativos do bioma. O resultado está chegando aos pratos: do restaurante mais sofisticado do Lago Sul ao bistrô descolado da Asa Norte, o Cerrado virou ingrediente de primeira linha.

Os protagonistas do bioma no prato

O pequi é, talvez, o mais icônico dos ingredientes do Cerrado — e também o mais controverso. Amado profundamente pelos goianos e temido pelos não iniciados por causa do seu caroço espinhoso, o fruto amarelo de cheiro intenso aparece em pratos que vão do tradicional arroz com pequi a releituras modernas, como risotos, manteigas aromatizadas e até sorvetes. Quem experimenta com cuidado, raramente esquece.

O baru é outro protagonista. A castanha desse fruto nativo tem sabor que lembra uma mistura de amendoim com castanha-do-pará, e pode ser consumida torrada, em paçocas, em granolas ou incorporada a pratos salgados. Rica em proteínas e gorduras saudáveis, o baru atrai também o público preocupado com alimentação funcional.

O jatobá, com sua farinha de cor avermelhada e sabor levemente adocicado, entra em pães, bolos e biscoitos. A gueroba — palmito nativo do Cerrado — aparece em saladas e refogados. O buriti, com sua polpa alaranjada e sabor tropical marcante, vira sucos, sorvetes e molhos. Cada ingrediente carrega não apenas sabor, mas história — e uma ligação profunda com o território.

Onde experimentar em Brasília

A cena gastronômica de Brasília tem abraçado esse movimento com entusiasmo crescente. Restaurantes de diferentes perfis e preços estão incorporando os ingredientes do Cerrado de formas cada vez mais criativas. No Mercado Sul, na Asa Sul, pequenos produtores e cozinheiros independentes oferecem desde quitutes tradicionais até preparações contemporâneas com frutas e ervas nativas.

As feiras orgânicas e agroecológicas do Distrito Federal também são espaços privilegiados para encontrar esses ingredientes in natura — e para conversar com os próprios produtores. Feiras como a do Setor de Clubes Sul, aos sábados, reúnem agricultores familiares que cultivam ou coletam produtos do Cerrado com respeito ao bioma.

Para quem quer ir além do prato e entender a história por trás dos ingredientes, algumas iniciativas em Brasília oferecem experiências gastronômicas guiadas, com degustação de produtos e explicações sobre o bioma. É gastronomia que alimenta corpo e consciência.

Mais do que tendência: uma questão de identidade

O movimento de valorização da gastronomia do Cerrado não é apenas uma tendência de mercado — é também um ato político e cultural. Comer os frutos do bioma é reconhecer que o Cerrado tem valor além da fronteira agrícola. É lembrar que esse território, frequentemente chamado de 'savana brasileira', é na verdade o bioma com maior biodiversidade do planeta em sua categoria, abrigando mais de 11 mil espécies de plantas — das quais centenas têm uso alimentar.

Cada prato com baru, cada sorvete de buriti, cada pão de jatobá é uma forma de dizer que o Cerrado importa — e que preservá-lo é, entre tantas outras razões, uma questão de gosto.


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